
A Galanga, município que dista 103 quilómetros da província do Huambo, maioritariamente habitado por antigos militares das extintas FALA, braço armado da UNITA, continua a ser apontada como o principal epicentro da intolerância política em Angola.
Este ano, o município saltou mais uma vez para as manchetes da imprensa nacional, na sequência de confrontos entre militantes do MPLA e da UNITA que resultaram na morte de um cidadão. Tal como em anos anteriores, a ocorrência mereceu o repúdio de organizações da sociedade civil, líderes religiosos e representantes dos dois maiores partidos políticos angolanos, que manifestaram preocupação com o recrudescimento da violência política e apelaram ao reforço da reconciliação nacional, numa altura em que o país se aproxima das eleições gerais de 2027.
O guião é o mesmo. O MPLA e a UNITA, às vezes um partido de menor dimensão, queixam-se de ser vítimas da intolerância política. O assunto é levado ao Parlamento, onde depois de trocas de galhardetes, o assunto acaba por morrer, até que um outro episódio apareça na imprensa ou até que passem as eleições.
Casos de retirada e destruição de bandeiras partidárias, alegadas perseguições, ameaças, vandalização ou incêndio de sedes de partidos e confrontos entre militantes têm marcado, de forma recorrente, o debate sobre a intolerância política em Angola.
No entanto, um facto interessante, é que este tipo de ocorrências raramente domina a agenda mediática em períodos distantes das eleições, ressurgindo quase sempre quando o calendário eleitoral se aproxima. A coincidência temporal levanta uma questão pertinente: assiste-se a um aumento efectivo dos actos de intolerância política ou estes episódios passam a receber maior atenção pública e política por ocorrerem em contexto de disputa eleitoral?
Angola conquistou a paz há 24 anos, mas ainda precisa de consolidar uma verdadeira cultura de tolerância política. Isso exige um corte umbilical com práticas herdadas de um passado marcado pela divisão, para que as novas gerações não cresçam a encarar o adversário político como inimigo. Essa mudança deve começar pela educação, promovendo nas escolas valores como o respeito pela diferença, o diálogo e a convivência democrática. Ao mesmo tempo, actos de violência, perseguição, ameaças ou destruição de bens motivados por intolerância política devem ser tratados com a seriedade necessária pelas instituições e enquadrados pela lei como comportamentos que atentam contra a paz e a liberdade dos cidadãos.