A mais recente digressão à África do ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, voltou a deixar Angola fora da agenda diplomática de Moscovo. Na semana passada, o chefe da diplomacia russa visitou o Níger, Etiópia, Moçambique e Burundi, numa deslocação centrada no reforço das relações políticas, económicas e de segurança com estes países.
Em Maputo, Lavrov reuniu-se com o Presidente moçambicano, Daniel Chapo, e com responsáveis governamentais, reiterando a disponibilidade da Rússia para aprofundar a cooperação bilateral, incluindo no combate ao terrorismo que continua a afectar a província de Cabo Delgado.
Questionada por este portal sobre uma eventual deslocação de Lavrov a Luanda, a Embaixada da Rússia em Angola afirmou não dispor de qualquer informação, avançando que o assunto estava a ser tratado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiro russo, em Moscovo. Para se pronunciar sobre o assunto, este portal contactou o embaixador António do Nascimento, do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa do Ministério das Relações Exteriores. Na semana passada, o responsável garantiu que responderia às questões remetidas pela Southern Bridge. Contudo, até à publicação deste artigo, não foi enviada qualquer resposta.
A “exclusão” de Angola desta nova ronda diplomática reforça a percepção de um progressivo arrefecimento das relações entre Luanda e Moscovo, uma tendência que a Southern Bridge já havia identificado ao revelar que a Embaixada da Rússia em Luanda continua sem embaixador há quase um ano.
A última visita de Serguei Lavrov a Angola ocorreu em Janeiro de 2023, no âmbito de uma digressão que incluiu igualmente a África do Sul, Essuatíni e Botsuana. Nessa ocasião, o ministro das Relações Exteriores, Téte António, defendeu um cessar-fogo na Ucrânia e insistiu na necessidade de uma solução negociada para o conflito, sublinhando o impacto global da guerra.
Angola, na pessoa do Presidente João Lourenço tem procurado manter uma posição equilibrada, recordando regularmente o apoio prestado pela antiga União Soviética à luta pela independência de Angola, mas reafirmando, em simultâneo, os princípios da soberania, da integridade territorial e do respeito pelo direito internacional, posições que têm sido interpretadas como um alinhamento com as resoluções aprovadas nas Nações Unidas sobre a Ucrânia.
Outro sinal do abrandamento da relação bilateral é o vazio na representação diplomática russa em Luanda. A Embaixada da Rússia encontra-se sem embaixador desde Agosto de 2025, quando Vladimir Tararov terminou a missão iniciada em 2017, tal como já fizemos referência numa das nossas publicações na semana passada. Desde então, a representação é assegurada, interinamente, pelo encarregado de negócios, Alexander Bryantsev.
Também João Lourenço não voltou a visitar Moscovo desde o início da guerra na Ucrânia, em Fevereiro de 2022, interrompendo uma tradição de contactos políticos regulares entre os dois países.
Apesar destes sinais, Moscovo tem procurado transmitir uma imagem de normalidade nas relações bilaterais com Angola. Em Setembro de 2025, Alexander Bryantsev entregou a Téte António uma mensagem de Serguei Lavrov, na qual o ministro russo reafirmava a amizade entre os dois Estados e manifestou disponibilidade para continuar a aprofundar a cooperação.
O peso crescente de Washington sobre Luanda
O progressivo distanciamento entre Angola e a Rússia coincide com uma aproximação sem precedentes entre Luanda e Washington.
Nos últimos anos, os Estados Unidos transformaram Angola num dos seus principais parceiros estratégicos em África, sobretudo devido ao Corredor do Lobito, projecto ferroviário que liga as regiões mineiras da República Democrática do Congo e da Zâmbia ao porto do Lobito.
A infra-estrutura é considerada fundamental para garantir o acesso ocidental a minerais estratégicos, como o cobre e o cobalto, indispensáveis para a indústria tecnológica e para a transição energética, reduzindo simultaneamente a dependência das cadeias de abastecimento dominadas pela China.
O simbolismo desta nova relação ficou evidente em Dezembro de 2024, quando Joe Biden “correu” para Luanda com uma comitiva “impressionante”, tendo se tornado no primeiro Presidente dos Estados Unidos em exercício a visitar Angola, o que constituiu um sinal claro da importância que Washington atribui ao país e ao Corredor do Lobito no actual contexto geopolítico.
Embora não exista nada oficial em termos de mudança formal das alianças, é evidente que a política externa de Luanda tem privilegiado as relações com os Estados Unidos e com os seus parceiros ocidentais, tanto pela dimensão dos investimentos como pelas oportunidades económicas associadas.
É importante referir que, com o endurecimento da política externa norte-americana após a chegada da nova Administração à Casa Branca, Washington passou a exigir um maior alinhamento estratégico dos seus parceiros. Na prática, essa orientação traduz-se em crescentes pressões para que os países reduzam a cooperação com Estados considerados adversários dos Estados Unidos, como a Rússia e a China. A África do Sul tornou-se um dos exemplos mais evidentes desta nova abordagem.
By: Ana Margoso
