Cristiano Paposseco (Especialista em Relações Internacionais)
Por detrás da sucessão de ataques aéreos, lançamentos de mísseis e interceptações que marcam o conflito entre os Estados Unidos/Israel contra o Irão, existe uma outra guerra, menos visível, mas decisiva: a guerra tecnológica.
As operações militares norte-americanas no Médio Oriente são, em muitos casos, conduzidas a milhares de quilómetros do espaço aéreo onde decorrem os combates. Equipas tácticas compostas, normalmente, por um piloto responsável pela navegação e por um operador encarregado dos sensores e do armamento controlam aeronaves não tripuladas a partir de centros de comando instalados em bases militares norte-americanas na região ou noutros pontos do mundo.
A comunicação com os aparelhos é estabelecida em tempo real através de uma complexa rede de satélites militares. A distância entre o operador e o campo de batalha deixou, assim, de constituir um obstáculo determinante para a condução das operações.
Para observar minuciosamente o terreno, os drones utilizam sistemas avançados de vigilância, como o MTS-B, um módulo esférico instalado na parte dianteira da aeronave. O equipamento combina imagens de câmaras de alta definição com sensores infravermelhos capazes de detectar fontes de calor durante a noite e sistemas de radar que permitem identificar alvos mesmo em condições de fraca visibilidade, incluindo quando está mau tempo, com nuvens densas ou quando há tempestades de areia, muito comum na região do Médio Oriente.
Se fizermos uma comparação hoje sobre como as tropas americanas operam, por exemplo, com emissores laser, com aquilo que aconteceu em 1992, durante a guerra Operaçáo no Deserto, vamos perceber que, embora na altura a tecnologia já existia, não era tão aperfeiçoada. Hoje, quando uma ameaça é identificada, o operador pode utilizar um emissor laser para marcar o alvo. Os mísseis lançados pelas aeronaves seguem então essa referência até ao ponto de impacto, permitindo ataques de elevada precisão e reduzindo, pelo menos em teoria, a margem de erro da operação.
Na Guerra do Golfo, as chamadas bombas inteligentes e os sistemas de orientação por laser já representavam uma revolução na guerra moderna, mas exigiam frequentemente a presença de aeronaves tripuladas e de equipas no próprio teatro de operações para localizar, iluminar e atacar os alvos. Actualmente, a mesma lógica de ataque de precisão evoluiu para um sistema muito mais complexo e integrado. Drones podem permanecer horas sobre uma determinada área, os seus sensores conseguem combinar imagens de alta definição, infravermelhos e radar, os alvos podem ser identificados e acompanhados em tempo real e o ataque pode ser executado por um operador situado a milhares de quilómetros de distância.
O que em 1991 representava o início da era das armas de precisão tornou-se, agora, uma rede de guerra tecnológica em que satélites, drones, inteligência artificial, sensores avançados e mísseis guiados trabalham em conjunto. A evolução é tão significativa que o piloto já nem precisa de estar dentro da aeronave para conduzir a missão, e o operador pode observar o campo de batalha em tempo real a partir de uma base situada noutro país ou até noutro continente.
Relativamente aos sistemas de vigilância, estes têm como missão identificar alvos a centenas ou milhares de quilómetros de distância. Depois de identificados, os mísseis são lançados e interceptados em fracções de segundo. No terreno, porém, a tecnologia transforma-se em explosões, sirenes e destroços. Os habitantes correm em busca de abrigo, enquanto fragmentos de mísseis e de projécteis interceptados pelas defesas aéreas caem sobre territórios dos países em guerra e seus aliados.
A imagem contrasta radicalmente com as guerras do passado. Durante grande parte do século XX, localizar o inimigo dependia de tropas no terreno, de observadores avançados, de mapas, de aviões de reconhecimento e de informações transmitidas com atraso. Na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, os bombardeamentos de grandes cidades exigiam enormes formações de aeronaves tripuladas, que atravessavam longas distâncias para lançar centenas de bombas sobre uma área muitas vezes extensa e imprecisa.

Mesmo durante a Operação Tempestade no Deserto, em 1991, quando a guerra assistiu a uma demonstração sem precedentes do poder aéreo e das armas guiadas, a presença humana no campo de batalha continuava a ser central. Os aviões tripulados tinham de penetrar no espaço aéreo inimigo, os pilotos enfrentavam directamente os riscos da missão e a identificação dos alvos dependia de uma combinação de reconhecimento aéreo, informações de inteligência e equipas militares no terreno.
Hoje, a lógica é diferente. Um drone pode permanecer durante horas sobre uma determinada área, recolhendo informação e acompanhando um alvo. Sensores de alta resolução permitem observar movimentos durante a noite, os sistemas de comunicação transmitem dados em tempo real e um operador situado a milhares de quilómetros pode participar na decisão de ataque. A guerra tornou-se, em muitos aspectos, mais distante para quem a executa, mas não para quem vive no local onde os mísseis caem.
É neste ambiente que o Irão tem procurado demonstrar que também possui capacidade para responder tecnologicamente às forças norte-americanas. Numa das mais recentes operações, as forças iranianas lançaram vagas de drones contra instalações militares dos Estados Unidos no Kuwait, atingindo, segundo as informações divulgadas, o paiol de munições de Camp Al-Udairi, bem como sistemas de radar e de defesa antiaérea Patriot instalados na Base Aérea Ali Al Salem.
A operação, designada pelas Forças Armadas iranianas como a fase 16 das Operações Saeqeh, teve como objectivo atingir infra-estruturas consideradas estratégicas para o destacamento e o apoio logístico das forças norte-americanas na região.
A natureza do ataque revela uma transformação importante na forma como os adversários procuram enfrentar uma potência militar superior. No passado, atacar uma base militar exigia, muitas vezes, o envio de tropas, aviões tripulados ou grandes formações de bombardeiros. Hoje, um número relativamente reduzido de drones, lançados a grande distância e coordenados em simultâneo, pode obrigar uma força militar tecnologicamente superior a activar sistemas de defesa multimilionários.
A resposta norte-americana expôs, por sua vez, outro elemento central desta guerra: a defesa antimíssil de alta velocidade. Em Erbil, capital da região autónoma do Curdistão iraquiano, foram accionados sistemas C-RAM, sigla de Counter-Rocket, Artillery and Mortar, na sequência de um alegado ataque com drones e mísseis atribuído ao Irão ou a grupos apoiados por Teerão.
O C-RAM é uma versão terrestre do sistema Phalanx, concebida para proteger bases militares e infra-estruturas estratégicas contra foguetes, morteiros, projécteis de artilharia, mísseis e aeronaves não tripuladas. O sistema utiliza um canhão rotativo de elevada cadência de tiro para destruir ameaças ainda no ar e a curta distância.
A tecnologia transforma, assim, o céu num espaço de competição entre sistemas automatizados. Um lado procura lançar uma ameaça suficientemente rápida, numerosa ou sofisticada para ultrapassar as defesas inimigas. O outro tenta detectá-la, calcular a sua trajectória e destruí-la antes que atinja o alvo. É uma versão contemporânea da velha lógica militar da ofensiva e da defesa, mas comprimida em segundos e dependente de radares, computadores, satélites e algoritmos.
Durante a Primeira Guerra Mundial, os soldados podiam passar semanas nas trincheiras à espera de uma ofensiva. Durante a Segunda Guerra Mundial, as forças aéreas precisavam de horas para alcançar os seus alvos. Na Guerra do Golfo, em 1991, as armas guiadas por laser e por sistemas de navegação começaram a alterar profundamente a relação entre o atacante e o alvo. Hoje, um sensor pode detectar uma ameaça, um sistema de comando pode calcular a resposta e uma arma pode ser lançada e interceptada em poucos segundos.
A lógica do conflito resume-se, cada vez mais, a uma medição de forças tecnológica: quem consegue detectar primeiro, quem consegue decidir mais rapidamente, quem consegue atacar com maior precisão e quem consegue interceptar a ameaça antes que ela atinja o alvo.
Mas existe uma contradição no centro desta evolução. Quanto mais sofisticadas se tornam as armas, maior é a distância entre quem decide e quem sofre as consequências. Para o operador, o campo de batalha pode surgir num ecrã, como uma imagem captada por uma câmara ou por um sensor infravermelho. Para quem está no solo, a mesma operação manifesta-se através do som de uma explosão, da queda de destroços e da procura desesperada por um abrigo.
A guerra pode ter-se tornado mais inteligente, mais precisa e mais automatizada. Mas, para as populações que vivem debaixo dos mísseis, a experiência continua a ser brutalmente familiar.