O MPLA rejeitou, ontem, a candidatura do general Higino Carneiro ao cargo de presidente do partido no IX Congresso Ordinário, marcado para Dezembro. A decisão, embora formalmente justificada por alegadas irregularidades no processo de entrega das assinaturas, estava longe de ser inesperada. Desde que a Comissão Nacional Preparatória do Congresso identificou problemas na documentação apresentada pela candidatura, tornou-se cada vez mais evidente que o general dificilmente conseguiria ultrapassar a barreira “política” que se erguia à sua frente.
Na verdade, a rejeição de ontem foi apenas o culminar de um assunto que já se arrasta há algum tempo. Segundo fontes normalmente bem informadas, Higino Carneiro, antes de apresentar a sua candidatura, andou nos bastidores a tentar convencer os seus camaradas de que seria a figura ideal para substituir João Lourenço como presidente do MPLA e da República, respectivamente.
Contam as nossas fontes que Carneiro terá mesmo mantido uma conversa com o Presidente Lourenço, durante a qual terá procurado obter a sua bênção para as suas intenções, bênção que nunca lhe foi dada. João Lourenço, assim como a maioria dos camaradas que compõem o Bureau Político do MPLA, órgão que, segundo os estatutos do partido, tem competência para indicar o nome do candidato ao congresso e, consequentemente, o cabeça-de-lista do MPLA, têm outros planos e outros nomes, dos quais não consta o do general Higino Carneiro.
Sem o apoio dos seus colegas de armas e de grandes batalhas, Carneiro lançou-se então à caça de apoio junto daqueles camaradas que, ao longo dos oito anos de liderança de João Lourenço, se terão desentendido com o ainda presidente do MPLA e cuja folha de serviço e anos de militância os tornam autoridades dentro do partido.
Conhecedor da casa e dos dossiers mais importantes, Higino Carneiro apresenta-se como um activo que, caso não seja bem gerido, promete trazer muita dor de cabeça aos camaradas. E eles estão conscientes disso.
Terá o “não” da Comissão do Congresso ditado a morte política do General 4×4?
Com a rejeição da sua candidatura, dois caminhos se apresentam ao general Higino Carneiro, também conhecido como General 4×4: ou se contenta com a sua sorte ou vai à luta.
O último cenário é o mais provável, tendo em conta aquilo que tem sido a postura, não propriamente do general, mas de muitos dos seus apoiantes nas redes sociais. Percebe-se que a resignação nunca esteve nos seus planos.
A luta partidária entre membros de proa de um partido com as características do MPLA não é uma novidade em Angola, nem além-fronteiras. Tivemos casos semelhantes na UNITA, onde Abel Chivukuvuku, um importante membro da direcção do partido, se voltou contra a direcção liderada por Isaías Samakuva, bateu às portas de outros espaços políticos e juntou-se à coligação CASA-CE, antes de formar o seu próprio partido, o PRA-JÁ Servir Angola. Além-fronteiras existem inúmeros exemplos. O próprio Cyril Ramaphosa, actual Presidente da África do Sul, perdeu durante muitos anos espaço dentro do seu partido, o ANC. Ramaphosa reemergiu anos depois para assumir a presidência do partido e tornar-se Presidente da República sul-africana.
Tal como afirmamos mais acima, caso Higino Carneiro escolha o caminho da “guerra”, poderá provocar danos irreparáveis ao partido dos camaradas e, pior ainda, causar danos à sua própria imagem. Os processos que decorrem neste momento em sede de justiça podem configurar um ponto fraco na luta que o camarada Higino poderá mover contra os seus camaradas de luta.
Outrossim, Carneiro poderá aproveitar a proximidade das eleições gerais e apelar ao voto num outro partido, talvez na UNITA, uma vez que parece manter boas relações com o actual presidente desta organização.
Mas o camarada Higino Carneiro poderá também optar por aquilo a que alguns chamariam bom senso e que eu chamaria respeito pela disciplina partidária, para, quiçá, preparar um delfim que represente as suas ideias e anseios dentro de alguns anos.
Com o enredo escrito há já algum tempo, agora há apenas que seguir o guião.
