A África do Sul está a procurar ampliar o comércio, o investimento e a cooperação económica com os países do Sul Global, numa altura em que as relações entre Pretória e Washington atravessam uma nova fase de tensão.
O Presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, aproveitou a 18.ª cimeira dos BRICS, realizada em Nova Deli, para defender o reforço das trocas comerciais e do investimento entre os membros do grupo, bem como a industrialização e a criação de cadeias de valor em África.
Durante a sua participação na cimeira, Ramaphosa colocou o comércio, as cadeias de abastecimento, a agricultura, a economia digital e a inovação entre as prioridades da África do Sul. O político participou também num encontro empresarial entre a Índia e a África do Sul, onde procurou atrair investimento indiano para sectores como farmacêutica, infra-estruturas, minerais críticos e produção de baterias para veículos eléctricos.
Analistas sul-africanos garantem que a estratégia ganha particular relevância perante a deterioração das relações com os Estados Unidos.
Hoje, Washington, através do secretário do Estado norte-americano, Marco Rúbio, anunciou restrições de vistos para determinados cidadãos estrangeiros oriundos da África do Sul que, segundo Marco Rubio, estejam envolvidos na criação ou aplicação de políticas relacionadas com expropriação de terras sem compensação, discriminação racial ou incitamento à violência contra minorias étnicas ou raciais.
As novas medidas, segundo Washington, não constituem uma proibição geral de entrada de sul-africanos nos Estados Unidos, mas representam mais uma escalada num relacionamento bilateral já fragilizado.
O Governo sul-africano rejeitou, entretanto, as acusações de Washington e afirmou que as suas políticas procuram enfrentar as desigualdades herdadas do apartheid, acusando os Estados Unidos de apresentarem de forma incorrecta a realidade sul-africana.
A tensão entre os dois países inclui ainda divergências sobre a política de reforma agrária da África do Sul e sobre a posição de Pretória relativamente ao conflito israelo-palestiniano. Washington também excluiu a África do Sul da próxima cimeira do G20, aumentando a pressão diplomática sobre o Governo de Ramaphosa.
Devido a todos estes dilemas é que Pretória procura aprofundar os seus canais económicos com outras economias emergentes. No encontro dos BRICS, Ramaphosa defendeu o aumento do comércio e do investimento dentro do grupo e a mobilização de capital para infra-estruturas africanas, incluindo projectos alinhados com a Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA).
A declaração da cimeira dos BRICS também deu destaque ao aumento do comércio através de moedas locais, ao reforço dos sistemas de pagamentos transfronteiriços e ao financiamento em moedas nacionais pelo Novo Banco de Desenvolvimento.
Para a África do Sul, a aposta no Sul Global não significa necessariamente abandonar os parceiros ocidentais, mas diversificar relações comerciais e fontes de investimento num momento de maior incerteza nas relações com Washington. O desafio para Pretória será transformar os compromissos políticos assumidos no âmbito dos BRICS em investimentos, produção e acesso efectivo a novos mercados.
