Os países africanos estão a passar da teoria à prática na sua visão da economia circular. À margem da 2.ª Cimeira Africana sobre o Clima (ACS2), realizou-se um diálogo pan-africano, o primeiro desde que a União Africana adotou o seu Plano de Ação Continental para a Economia Circular (CCEAP) em julho de 2025.
A sessão, intitulada ‘Concretizar a Agenda da Economia Circular Africana: dos Roteiros à Ação Continental’, reuniu funcionários governamentais, empresários e parceiros de desenvolvimento para traçar medidas práticas para ampliar as iniciativas de economia circular em todo o continente. Foi organizada pelo Mecanismo Africano da Economia Circular (ACEF) do Banco Africano de Desenvolvimento, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e pela Aliança Africana para a Economia Circular (ACEA). O ACEF fornece financiamento catalisador para iniciativas de economia circular, enquanto a ACEA, organizada pelo BAD, serve como uma plataforma continental para os governos alinharem reformas e impulsionarem projetos conjuntos.
Nas suas observações, o Comissário da União Africana Moses Vilakati descreveu o Plano de Ação da UA como “um palco para um futuro verde, inclusivo e resiliente, e uma oportunidade para África liderar a economia circular global, ao mesmo tempo que enfrenta as alterações climáticas de frente”. Os benefícios potenciais desta transformação são substanciais: poderia desbloquear 546 mil milhões de dólares em oportunidades de mercado e criar 11 milhões de empregos até 2030.
O diretor para as Alterações Climáticas e Crescimento Verde do Banco Africano de Desenvolvimento, Anthony Nyong, delineou a solução: “África tem a visão, através do Plano de Ação da UA. Tem os roteiros nacionais que traduzem essa visão em medidas práticas. E tem as plataformas – através da ACEA e do ACEF – que podem conectar esses esforços e mobilizar os recursos necessários para os ampliar”.
O diretor do Centro de Serviços Regionais do PNUD para África, Matthias Naab afirmou: “A jornada de África rumo a uma economia circular não é mais uma visão distante; está a acontecer agora. O Plano de Ação Continental para a Economia Circular é o nosso projeto comum para a transformação, enraizado nas realidades das nossas nações e nas aspirações do nosso povo. O seu sucesso depende de parcerias ousadas, inovação local e da liderança dos nossos jovens e mulheres. Juntos, podemos criar uma economia inclusiva baseada na circularidade dos recursos, para promover um desenvolvimento sustentável liderado por África, em África”.
O debate procurou ligar a agenda climática de África à estratégia industrial, posicionando a ação climática como um motor da competitividade, do comércio regional e da soberania, em vez de apenas uma questão ambiental.
Margaret Oduk, do PNUA, reforçou esta mudança estratégica: “As soluções circulares podem redefinir a economia africana, acelerar uma recuperação mais ecológica e tornar a sustentabilidade a base do desenvolvimento, e não um simples desejo”.
A embaixadora da Finlândia, Sinikka Antila, em representação de um dos principais doadores do ACEF, partilhou como o pioneiro roteiro nacional de economia circular do seu país reestruturou as indústrias e remodelou os mercados. “Vimos como a circularidade pode impulsionar mudanças sistémicas”, disse Antila. “E África tem vantagens: escala, juventude e a urgência de dar um salto à frente”, sublinhou.
No Ruanda, o Centro de Produção Mais Limpa e Inovação Climática apoia empreendedores que transformam plásticos descartados em tijolos ecológicos suficientemente resistentes para construir salas de aula. Na Etiópia, a Autoridade de Proteção Ambiental está a incorporar a circularidade em novas regulamentações industriais.
Gabriella Sirak, da empresa de tecnologia agrícola Lersha, com sede em Adis Abeba, destacou um desafio fundamental: “Podemos inovar e responder à procura, mas o que nos falta são caminhos para crescer além dos projetos-piloto”.
Com a COP30 no Brasil a aproximar-se, a discussão no evento paralelo não deixou dúvidas: África está a avançar e a contribuir com soluções através da economia circular. O desafio agora é manter o alinhamento entre as reformas nacionais e os quadros continentais, entre empreendedores e investidores, entre ambição e resultados.
