Southern Bridges

Andreia Muhitu: A voz angolana que transforma a experiência do albinismo numa luta pela inclusão na SADC

Professora, activista e gestora de turismo, é uma das jovens vozes mais activas na luta contra a discriminação das pessoas com albinismo

A história de Andreia Solange Sicato Muhitu é marcada por fronteiras, culturas e desafios superados. Angolana de origem, crescida entre a influência cultural da Namíbia e as raízes preservadas dentro de casa, tornou-se numa das vozes mais conhecidas na defesa dos direitos das pessoas com albinismo em Angola e na região da África Austral.

Abaixo, uma conversa, interessante, calma e divertida que a Southerbridgesb teve com a Miss Albinism SADC.

Professora, licenciada em Gestão do Turismo, membro do Movimento Albino e Vice-Presidente da Associação de Apoio às Pessoas com Albinismo de Angola (4As), na Direcção Provincial do Cubango e Cuando, Andreia carrega uma missão que ultrapassa a sua própria história: transformar o olhar da sociedade sobre o albinismo e mostrar que a diferença não deve ser sinónimo de limitação.

Em 2023, conquistou o título de Miss Albinism SADC, uma distinção que colocou a sua voz num palco regional. Mais do que um reconhecimento pela sua imagem, Andreia encara o título “como uma oportunidade para ampliar uma mensagem de inclusão nos países que integram a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC)”, disse.

Para ela, representar a região significa mostrar a outras pessoas com albinismo, especialmente jovens mulheres, que é possível vencer barreiras, ocupar espaços e participar activamente na sociedade.

Eu nunca vi o título como sendo apenas sobre beleza. O mais importante foi conquistar uma plataforma para falar sobre o albinismo”, explica.

Andreia Muhitu, a força da natureza

A confiança nasceu dentro de casa

A força que hoje demonstra publicamente tem origem na infância. Andreia atribui grande parte da sua confiança aos ensinamentos da mãe, que desde cedo a incentivou a reconhecer o seu próprio valor.

“Ela sempre me ensinou a dizer: eu sou linda, bela e maravilhosa”, recorda.

A educação recebida em casa permitiu-lhe crescer sem encarar o albinismo como motivo de vergonha. Pelo contrário, aprendeu a caminhar de cabeça erguida e a compreender que todas as pessoas possuem o mesmo valor, independentemente das suas características físicas.

Essa base tornou-se essencial para enfrentar uma sociedade onde ainda persistem preconceitos contra pessoas com albinismo.

Uma mulher, dois desafios

No mercado de trabalho, Andreia vive aquilo que considera uma dupla realidade: ser mulher numa sociedade onde ainda existem desigualdades e ser uma pessoa com albinismo, condição que traz desafios específicos.

“Enquanto mulher, muitas vezes sentimos que as nossas ideias precisam de ser mais bem fundamentadas para serem levadas a sério”, afirma.

Além das barreiras sociais, enfrenta dificuldades relacionadas com a baixa visão, uma característica comum entre muitas pessoas com albinismo. Para trabalhar, precisa adaptar ferramentas e ambientes: amplia o ecrã do computador, utiliza documentos com letras maiores e prepara apresentações com textos em tamanho aumentado.

As limitações visuais também influenciam situações do quotidiano, como reconhecer pessoas à distância ou em locais com muita movimentação.

Outro desafio está relacionado com a exposição solar. Como pessoa com albinismo, necessita de cuidados especiais para proteger a pele. Actividades realizadas ao ar livre exigem preparação antecipada, incluindo o uso de protector solar e outras medidas de protecção.

A Namíbia e a construção de uma identidade regional

A ligação de Andreia com a Namíbia ocupa um lugar central na sua formação pessoal e profissional. Apesar de ter crescido naquele país, a cultura angolana permaneceu presente através da família, criando uma identidade marcada pelo encontro entre diferentes realidades da África Austral.

Ela define-se como uma “criança de terceira cultura”, alguém que aprendeu a viver entre referências culturais distintas.

A experiência na Namíbia permitiu-lhe desenvolver uma capacidade de adaptação cultural que mais tarde se tornou uma ferramenta profissional. Essa competência ajudou-a durante experiências no Zimbabué, onde trabalhou como guia turística e tradutora para visitantes estrangeiros.

Hoje, essa capacidade também é útil dentro de Angola, onde identifica diferenças culturais entre regiões como Luanda e o Cuando Cubango, apesar de fazerem parte do mesmo país.

Para Andreia, compreender culturas diferentes “é uma vantagem num espaço regional como a SADC, onde países vizinhos procuram fortalecer a cooperação, o comércio, o turismo e a mobilidade das populações”, disse.

O inglês como ponte para uma África Austral mais integrada

A jovem professora defende que Angola deve continuar a investir fortemente no ensino da língua inglesa

Como professora de inglês, Andreia defende que Angola deve continuar a investir no ensino da língua, sobretudo por estar inserida numa região onde muitos países utilizam o inglês como principal meio de comunicação internacional.

No entanto, considera que o passado histórico do país deve ser respeitado.

“Não devemos esquecer que fomos colonizados por Portugal durante mais de quatro séculos e que a língua portuguesa faz parte da nossa identidade”, destaca.

Ao mesmo tempo, acredita que o crescimento do número de falantes de inglês em Angola poderá fortalecer a presença do país na SADC, facilitando negócios, intercâmbios culturais e oportunidades económicas.

Um futuro com mais mulheres com albinismo confiantes

Quando imagina os próximos vinte anos, Andreia vê uma sociedade mais inclusiva e uma nova geração de mulheres com albinismo mais preparada para ocupar espaços.

O seu sonho é ampliar os projectos que já desenvolve e multiplicar o impacto da sua mensagem.

“Gostaria de ver uma geração de mulheres com albinismo muito mais confiante do que a minha geração”, afirma.

Para ela, a verdadeira mudança acontece quando crianças e jovens deixam de crescer acreditando que são inferiores e passam a reconhecer o seu potencial.

Protecção da pele como direito fundamental

Entre as principais preocupações da activista está o acesso aos produtos essenciais de protecção da pele, especialmente o protector solar.

Andreia defende que o Estado “deve garantir mecanismos que permitam às pessoas com albinismo obter esses produtos de forma acessível e regular”.

Miss Austral

Segundo explicou à Southern Bridges, o protector solar “não é apenas um produto cosmético, mas uma ferramenta de saúde pública, fundamental para prevenir doenças graves, incluindo o cancro da pele. A medida teria impacto directo em crianças que diariamente caminham para a escola sob exposição solar intensa e em adultos que trabalham ao ar livre, afirmou.

Para Andreia, garantir esse acesso é também garantir igualdade de oportunidades.

Uma mensagem que atravessa fronteiras

Entre aulas, activismo e projectos sociais, Andreia encontra ainda tempo para actividades que alimentam a sua criatividade: gosta de assistir anime (boneco animado de origem japonesa, muito popular entre os mais jovem em Angola), cantar e dançar. Mas a sua maior expressão continua a ser a defesa dos direitos das pessoas com albinismo.

A sua caminhada, que liga Angola, Namíbia e outros espaços da África Austral, representa uma realidade comum a muitos cidadãos da SADC: “a necessidade de construir sociedades onde a diversidade seja respeitada e onde ninguém seja definido pelas suas diferenças”, advertiu.

Andreia Muhitu transformou a sua história pessoal numa causa regional — mostrando que a inclusão começa quando uma pessoa acredita no próprio valor e encontra coragem para inspirar outras.

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