Angola e o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) lançaram um programa de desenvolvimento das cadeias de valor agrícolas avaliado em 211,4 milhões de dólares, destinado a beneficiar cerca de 240 mil famílias, equivalentes a aproximadamente 1,2 milhões de pessoas, em seis províncias da região leste do país.

O Projecto de Desenvolvimento das Cadeias de Valor Agrícolas da Região Leste foi formalmente lançado em Julho e abrange as províncias da Lunda-Norte, Lunda-Sul, Moxico, Moxico Leste, Cuando e Cubango, com o objectivo de aumentar a produção agrícola, melhorar o processamento, armazenamento e comercialização dos produtos e reduzir a dependência de Angola das importações alimentares.
Entre as culturas abrangidas pelo projecto estão o trigo, arroz, soja, feijão, amendoim, mandioca, café, cacau e óleo de palma. O BAD aprovou o financiamento de 211,4 milhões de dólares em Novembro de 2025.
O projecto surge no âmbito da estratégia do Executivo angolano de diversificar a economia e reduzir a dependência histórica do petróleo e dos minerais. Apesar dos seus recursos fundiários e hídricos, Angola continua a importar uma parte significativa dos alimentos consumidos no país.
De acordo com o BAD, entre 85% e 90% da população angolana depende da agricultura e do comércio agrícola para a sua subsistência, embora a economia nacional continue fortemente dependente das receitas provenientes do petróleo e da exploração mineira.
Agricultura e Corredor do Lobitoº«
A região abrangida pelo projecto possui um elevado potencial agrícola, com níveis de precipitação geralmente entre 1.200 e 1.800 milímetros por ano e acesso às bacias hidrográficas do Congo, Zambeze e Cubango-Okavango.
O programa pretende, contudo, ir além do simples aumento da produção. A aposta está na criação de infra-estruturas e serviços que permitam transformar a produção agrícola em actividade comercial, através de investimentos na produção, conservação, armazenamento, processamento e comercialização.
O Corredor do Lobito, será uma componente estratégica do projecto, que permitirá uma ligação potencial entre produtores agrícolas do leste de Angola e mercados nacionais e regionais, incluindo a República Democrática do Congo e a Zâmbia.
A melhoria das ligações de transporte e a criação de centros de agregação e armazenamento poderão facilitar o escoamento de produtos como milho, soja e arroz, permitindo aos produtores alcançar mercados mais distantes e aumentar o rendimento obtido com a actividade agrícola.
Para efeitos, o BAD pretende com este projecto gerar cerca de 7.500 empregos directos, dos quais pelo menos metade deverá beneficiar mulheres e um terço jovens.
A instituição acredita que aproximadamente 55% dos pequenos produtores beneficiários directos sejam mulheres, reflectindo o peso da população feminina na produção agrícola e nos sistemas alimentares das comunidades rurais.
O projecto inclui igualmente iniciativas específicas destinadas aos jovens, com formação e criação de oportunidades nas áreas de mecanização, logística, transformação agro-industrial, agricultura digital, controlo de qualidade e financiamento agrícola.
Para além do financiamento público, a execução do programa deverá exigir a participação de bancos, empresas de transformação, operadores logísticos e investidores privados, sobretudo nas áreas de sementes, fertilizantes, maquinaria, armazenamento, processamento, transporte e comercialização.
A iniciativa do BAD junta-se a outros programas do Executivo destinados a transformar o sector agrícola.
AgriConnect Compact
Em Junho, Angola e o Banco Mundial lançaram o AgriConnect Compact, que pretende criar até 700 mil empregos até 2030, gerar até 2,2 mil milhões de dólares em valor acrescentado anual e mobilizar até 1,45 mil milhões de dólares em financiamento público e privado para a agricultura.
Em Fevereiro, o ministro da Agricultura e Florestas, Isaac dos Anjos, afirmou que o Executivo pretende transformar os sistemas agrícolas em sistemas agro-alimentares modernos, aumentando a produção, o emprego e a segurança alimentar. Segundo dados do Ministério da Agricultura e Florestas, a produção agrícola nas principais cadeias de valor aumentou 8,6% na campanha agrícola de 2024/25.
O Governo tem também procurado reforçar a cooperação internacional no sector. Em Agosto, Angola e o Brasil reafirmaram a intenção de aprofundar a cooperação em áreas como investimento agrícola, mecanização, transferência de tecnologia, investigação científica, formação e desenvolvimento das cadeias de valor.
Com o novo projecto, o Executivo pretende transformar a região leste num importante centro de produção alimentar, com potencial para abastecer o mercado nacional e, a prazo, fornecer produtos agrícolas a outros países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC).
O sucesso da iniciativa dependerá, contudo, da capacidade de ultrapassar constrangimentos como o acesso ao financiamento, transporte, armazenamento, mecanização, assistência técnica e acesso aos mercados, factores que continuam a limitar a expansão comercial da agricultura angolana.