A Associação Angolana para Reparações Históricas (ASOKO), dedicada à memória, à justiça histórica e à reparação, será apresentada esta semana em Luanda, numa cerimónia que terá lugar na quinta-feira, 03, no Memorial Dr. Agostinho Neto.
De acordo com a organização, a criação da ASOKO tem como finalidade colocar no centro do debate nacional e africano as consequências deixadas por séculos de escravatura, exploração, fragmentação territorial e sistemas de dominação sobre os povos africanos.
A associação pretende ainda promover a reflexão sobre questões relacionadas com a memória histórica, o reconhecimento, a restituição, a dignidade e as reparações, defendendo que compreender o passado é uma condição necessária para enfrentar desigualdades e construir relações mais justas no presente.
A ASOKO surge num contexto em que o debate sobre as consequências da escravatura, do colonialismo e da exploração dos recursos africanos tem ganhado espaço no continente e internacionalmente. Para os seus promotores, a discussão sobre reparações não deve limitar-se à recuperação de bens ou à compensação por perdas materiais, mas incluir também a preservação da memória, o reconhecimento das injustiças históricas e a valorização das culturas e identidades africanas.
Durante séculos, milhões de africanos foram retirados das suas comunidades e transportados para outras regiões, enquanto os recursos naturais das suas terras eram explorados e as estruturas políticas e culturais eram profundamente alteradas.
Os promotores da ASOKO defendem que estas experiências continuam a ter reflexos no presente e que a discussão sobre reparações deve contribuir para que os africanos deixem de ser vistos apenas como herdeiros de uma história de violência e passem a assumir um papel central na definição do seu futuro.
A associação pretende, por isso, promover iniciativas de investigação, debate, educação e preservação da memória histórica, procurando aproximar a discussão sobre reparações das novas gerações.
A cerimónia de apresentação da ASOKO contará também com a apresentação de uma colectânea composta por 16 livros escritos por mulheres africanas, descritas pela organização como “herdeiras de Njinga Mbandi”.
A referência à rainha Njinga Mbandi, uma das figuras históricas mais conhecidas da resistência africana à presença colonial portuguesa em Angola no século XVII, pretende estabelecer uma ligação entre memória histórica, resistência e afirmação das mulheres africanas.
A iniciativa pretende, assim, associar a discussão sobre reparações históricas à produção intelectual e cultural africana, dando visibilidade à perspectiva de mulheres que procuram reinterpretar a História a partir do continente e das suas próprias experiências.
Para a ASOKO, discutir reparações históricas não significa permanecer preso aos acontecimentos do passado, mas compreender de que forma esses acontecimentos continuam a influenciar as sociedades africanas.
A associação parte do princípio de que não pode existir uma verdadeira reconciliação sem memória, nem justiça sem reconhecimento das injustiças cometidas. A reparação é apresentada como um processo que deve contribuir para recuperar a dignidade, fortalecer a identidade e criar condições para que os povos africanos participem na construção do seu próprio futuro.
A apresentação pública da ASOKO acontece numa altura em que vários países africanos e instituições internacionais têm intensificado o debate sobre a escravatura, o colonialismo, a restituição de património cultural e as possíveis formas de reparação histórica.
Em Angola, a iniciativa pretende abrir um novo espaço de discussão sobre estas questões e colocar o país no debate mais amplo sobre memória, identidade, justiça histórica e reparações em África.
