A Coreia do Norte acusou, esta semana, o Japão de tentar recuperar o seu passado militarista, depois de dirigentes japoneses terem assinalado o aniversário da rendição do país na Segunda Guerra Mundial com homenagens no controverso santuário Yasukuni, em Tóquio.
O jornal norte-coreano Pyongyang Times criticou a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, por ter enviado uma oferenda ao santuário, onde estão consagrados os nomes de militares japoneses mortos em guerras, incluindo 14 condenados como criminosos de guerra de Classe A após a Segunda Guerra Mundial.
Pyongyang considerou as cerimónias uma afronta aos povos asiáticos que sofreram durante a expansão imperial japonesa, acusando as autoridades de procurarem “invocar os espíritos dos criminosos de guerra” e, simultaneamente, apagar da memória os crimes cometidos pelo Japão durante o conflito.
A Coreia do Norte afirmou ainda que as homenagens constituem uma tentativa de recuperar símbolos associados ao militarismo japonês, num momento em que Tóquio procura reforçar as suas capacidades de defesa perante um ambiente de segurança cada vez mais tenso no Leste Asiático.
O santuário Yasukuni continua a ser uma das questões mais sensíveis nas relações do Japão com os seus vizinhos asiáticos. Para a China e as duas Coreias, a presença de criminosos de guerra de Classe A entre os homenageados transforma qualquer visita de altos responsáveis japoneses ao local num gesto particularmente controverso.
A questão está relacionada com a ocupação japonesa de várias partes da Ásia e com as atrocidades cometidas pelas forças imperiais durante a primeira metade do século XX. China e Coreia foram particularmente afectadas pelo domínio japonês, que deixou um legado histórico ainda hoje presente nas relações diplomáticas da região.
As críticas de Pyongyang acontecem quando cresce a tensão entre a Coreia do Norte e o Japão. Tóquio considera o programa nuclear e de mísseis norte-coreano uma das principais ameaças à sua segurança, enquanto Pyongyang acusa regularmente o Governo japonês de utilizar a ameaça norte-coreana para justificar o reforço militar do país.
O santuário Yasukuni tornou-se, assim, não apenas um local de homenagem aos mortos, mas também um dos símbolos mais controversos da memória da guerra na Ásia. Cada visita ou oferenda de dirigentes japoneses ao local tende a provocar reacções negativas de países que foram vítimas da expansão imperial japonesa.
Para Pyongyang, as recentes cerimónias demonstram que o Japão ainda não rompeu completamente com o legado militarista do passado. Tóquio, por seu lado, sustenta que as homenagens estão relacionadas com a memória dos mortos e com a tradição de prestar tributo aos japoneses que perderam a vida em conflitos.
A disputa em torno de Yasukuni continua, deste modo, a expor uma das feridas históricas mais profundas do Leste Asiático, numa região onde as questões de memória da Segunda Guerra Mundial continuam a influenciar as relações políticas e de segurança entre as principais potências.
