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Especialistas acusam Trump de politizar política de refugiados ao privilegiar sul-africanos brancos

A decisão da Administração de Donald Trump de ampliar o programa de acolhimento de refugiados dos Estados Unidos para privilegiar sul-africanos brancos que alegam ser vítimas de perseguição racial está a ser acusada de politizar a política de asilo e de utilizar critérios étnicos num sistema que deveria basear-se no grau de risco e perseguição enfrentado pelos requerentes.

De acordo com Oscar van Heerden, investigador do Centro para Diplomacia e Liderança Africana da Universidade de Joanesburgo, a narrativa adoptada pela Administração Trump em torno da alegada perseguição contra sul-africanos brancos tem uma dimensão política e procura enfraquecer a imagem internacional da África do Sul, sobretudo devido à posição assumida por Pretória contra Israel no conflito na Faixa de Gaza.

Segundo o especialista, a lógica subjacente à narrativa norte-americana é questionar a autoridade moral da África do Sul: “Como é que um país como a África do Sul pode acusar Israel de genocídio se estaria a cometer genocídio contra a sua própria população branca?”.

A África do Sul apresentou, no final de 2023, uma queixa contra Israel no Tribunal Internacional de Justiça, em Haia, acusando o país de possíveis actos de genocídio contra os palestinianos na Faixa de Gaza. Israel rejeita a acusação e afirma que actua em legítima defesa na sequência dos ataques do Hamas, em Outubro de 2023.

Van Heerden considera que Trump procura questionar a autoridade moral da África do Sul no cenário internacional. “Como é que um país como a África do Sul pode acusar Israel de genocídio se estaria a cometer genocídio contra a sua própria população branca?”, seria, segundo o investigador, a lógica subjacente à narrativa adoptada pela Administração norte-americana.

Os especialistas reconhecem que a África do Sul enfrenta uma grave crise de criminalidade, mas defendem que a violência está sobretudo relacionada com a desigualdade social, a pobreza e as fragilidades económicas, afectando diferentes grupos da sociedade e não apenas a população branca.

Recentemente, uma carta aberta assinada por personalidades brancas sul-africanas rejeitou o programa de refúgio dos Estados Unidos, classificando-o como discriminatório.

As críticas à política de Trump intensificaram-se também devido ao tratamento desigual dado a diferentes grupos de refugiados.

Enquanto cidadãos sul-africanos brancos são incluídos no programa norte-americano, pessoas que fogem de guerras e perseguições em países como o Afeganistão, a República Democrática do Congo e o Sudão continuam a enfrentar restrições, tal como afirma, Gustavo de Carvalho, especialista em governação africana do Instituto Sul-Africano de Assuntos Internacionais (SAIIA).

Segundo Carvalho, a utilização de critérios étnicos para determinar quem recebe protecção viola princípios fundamentais da política internacional de refugiados e transforma o sistema de acolhimento num instrumento de influência política da Casa Branca.

Em 2024, durante a Administração de Joe Biden, os Estados Unidos acolheram mais de 100 mil refugiados, cerca de um terço dos quais provenientes de países africanos, incluindo muitos cidadãos da República Democrática do Congo. Já durante a actual Administração, dos cerca de 6.700 refugiados acolhidos entre Outubro de 2025 e Maio de 2026, quase todos eram provenientes da África do Sul, e brancos.

Desde a subida de Trump ao poder nos EUA, as relações entre Washington e Pretória azedaram.

Para além das acusações de perseguição contra sul-africanos brancos, a Administração Trump reduziu a ajuda financeira à África do Sul, boicotou a cimeira do G20 realizada em Joanesburgo, em 2025, e excluiu o país da próxima edição do encontro, prevista para Dezembro de 2026.

A boa relação entre Pretória, Moscovo e Pequim, é outra situação que incomoda bastante Washington. Especialistas relacionam parte do conflito com a posição da África do Sul no BRICS, grupo que inclui países como a China, a Rússia e a Índia e que tem defendido uma maior utilização de moedas locais nas transações internacionais e uma menor dependência do dólar norte-americano.

Os críticos consideram que a política de refugiados adoptada por Trump representa uma forma de “humanitarismo selectivo” e pode prejudicar a imagem dos Estados Unidos enquanto referência mundial em matéria de direitos humanos.

Para Gustavo de Carvalho, a escolha de critérios raciais, em vez do grau de risco enfrentado pelos refugiados, compromete a credibilidade internacional norte-americana.

Os defensores da política, por seu lado, argumentam que a Administração Trump procura dar prioridade aos interesses nacionais e reduzir os gastos externos, em linha com o princípio “America First” (América Primeiro), lema associado ao movimento político do Presidente norte-americano.

Fonte: DW

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