O governo da Tanzânia advertiu a população para não divulgar fotografias nem vídeos que possam gerar pânico, à medida que o acesso à Internet vai sendo gradualmente restabelecido, depois de seis dias de bloqueio durante os violentos protestos que começaram no dia das eleições.
Na noite de segunda-feira, os utilizadores de telemóveis receberam mensagens de texto avisando que a partilha de imagens capazes de “causar pânico” ou de “desrespeitar a vida humana” poderia resultar em “acusações de traição”.
As advertências surgiram pouco depois de o acesso à Internet ter sido restabelecido, quando começaram a circular nas redes sociais imagens não verificadas de corpos, alegadamente pertencentes a vítimas dos protestos eleitorais. Uma página que publicava fotografias e vídeos de supostas vítimas foi retirada das redes na mesma noite, após reunir milhares de seguidores em apenas um dia.
O governo ainda não divulgou o número oficial de mortos, mas a Presidente Samia Suluhu Hassan, durante a cerimónia de posse realizada na segunda-feira, reconheceu que houve “perdas de vidas” e apelou às forças de segurança para restaurarem a ordem e protegerem a população.
Segundo o partido da oposição “Chadema”, mais de mil pessoas terão morrido durante os confrontos. A organização Human Rights Watch condenou, na terça-feira, a repressão violenta das autoridades, citando relatos de execuções à queima-roupa e apelando à responsabilização pelos crimes cometidos. A Igreja Católica tanzaniana referiu igualmente que as mortes se contam “às centenas”, embora sem confirmação oficial.
Os protestos começaram a 29 de Outubro, dia das eleições presidenciais no país, depois de a Comissão Eleitoral ter impedido a candidatura dos dois principais partidos da oposição. Samia Hassan foi declarada vencedora com 97% dos votos, resultado contestado por observadores internacionais, que reportaram uma baixa participação e irregularidades no processo eleitoral.
Durante as manifestações, as forças de segurança dispersaram os protestos com tiros reais e gás lacrimogéneo, impondo um toque de recolher nacional. Após vários dias de tensão, a vida começou lentamente a regressar ao normal nas cidades de Dar- El- Salaam e Dodoma, com postos de combustível e transportes públicos a retomar as suas actividades.
O porta-voz do governo pediu, na segunda-feira, o regresso dos funcionários públicos aos seus postos de trabalho, pondo fim à ordem de teletrabalho imposta durante o toque de recolher.
A Human Rights Watch apelou ainda ao “restabelecimento total da Internet”, considerando que as restrições impostas violam o direito à liberdade de expressão e ao acesso à informação.
Oposição acusa forças de segurança de ocultar corpos
As autoridades da Tanzânia enfrentam crescente preocupação internacional devido às mortes registadas durante e após as eleições da semana passada. O principal partido da oposição, o Chadema, acusou ontem as forças de segurança de estarem a “ocultar os corpos de centenas de pessoas mortas” na repressão que chocou a região da África Oriental.
Os protestos eclodiram após o escrutínio de quarta-feira, espalhando-se por várias cidades, incluindo Dar es Salaam, a capital económica, onde jovens saíram às ruas para denunciar o que consideram ter sido uma eleição nem livre nem justa. As forças de segurança responderam com tiros reais, gás lacrimogéneo e a imposição de um toque de recolher obrigatório.
Em declarações à agência Associated Press, Brenda Rupia, directora de comunicação do partido Chadema, disse que “os corações dos tanzanianos estão a sangrar”. Isto é algo novo para o nosso país”, lamentou.
A Presidente, Samia Suluhu Hassan foi declarada vencedora com mais de 97% dos votos. Esta foi a sua primeira eleição presidencial, depois de ter assumido o cargo em 2021, na sequência da morte inesperada do então presidente, John Pombe Magufuli.
A exclusão dos principais rivais, Tundu Lissu, do partido Chadema, e Luhaga Mpina, da ACT-Wazalendo, reforçou as críticas à falta de credibilidade do processo eleitoral. Lissu encontra-se detido há vários meses, acusado de traição por defender reformas eleitorais, enquanto o seu adjunto, John Heche, foi preso dias antes da votação.
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