A Netflix lançou recentemente The Trials of Winnie Mandela, uma série documental de sete episódios que revisita a vida, a luta política e o legado controverso de Winnie Madikizela-Mandela, uma das figuras mais marcantes da resistência contra o apartheid na África do Sul. A série estreou a 23 de Abril de 2026.
Realizado pela cineasta Mandy Jacobson, o documentário procura apresentar uma visão mais complexa de Winnie Madikizela-Mandela, afastando-se tanto da imagem exclusivamente heróica como das acusações que durante décadas marcaram a sua representação pública. A narrativa é conduzida, em grande medida, pelas suas netas, Princess Swati Mandela-Dlamini e Princess Zaziwe Manaway, que procuram compreender a mulher que conheceram como “Big Mommy”.
A produção recorre também a imagens inéditas e a testemunhos de familiares e de pessoas ligadas a diferentes momentos da vida de Winnie, permitindo que a própria antiga dirigente do movimento anti-apartheid fale sobre a sua infância, actividade política, casamento, maternidade e relações com os companheiros de luta.
Uma das questões centrais levantadas pela série é a forma como a sociedade e a história julgaram Winnie Madikizela-Mandela. A mulher que se tornou um dos rostos mais conhecidos da resistência ao apartheid foi simultaneamente acusada de violência, abuso e envolvimento em episódios controversos, criando uma figura histórica marcada tanto pela admiração como pela condenação.
O documentário recupera, por isso, uma questão particularmente incómoda: até que ponto parte da linguagem utilizada para descrever Winnie — «difícil», «abusiva» ou «incontrolável» — resulta também de uma forma diferente de julgar mulheres que desafiam estruturas de poder?
A pergunta ganha significado quando colocada no contexto da Marcha das Mulheres de 9 de Agosto de 1956, quando mais de 20 mil mulheres protestaram em Pretória contra as leis de passes do apartheid. Winnie não participou naquela manifestação, mas a sua trajectória política ficou ligada à mesma tradição de resistência feminina contra um sistema que procurava controlar a vida e a mobilidade da população negra.
A série procura ainda confrontar as diferentes dimensões da sua personalidade: activista, mãe, esposa de Nelson Mandela, símbolo da luta anti-apartheid e figura envolvida em episódios que continuam a provocar debate na sociedade sul-africana. A própria Netflix descreve-a como «freedom fighter, mother, wife, enigma», reflectindo a complexidade da personagem.
Com cerca de sete horas de duração, The Trials of Winnie Mandela não procura apenas reconstruir uma biografia. A produção coloca em discussão a forma como a memória histórica é construída e como uma mulher que assumiu posições de confronto pode ser julgada de maneira diferente de um homem que tivesse adoptado comportamentos semelhantes.
O lançamento ocorre num momento em que a África do Sul continua a revisitar o seu passado de apartheid e as figuras que participaram na luta pela libertação. Ao colocar as próprias netas de Winnie no centro da investigação sobre a sua avó, a produção procura também aproximar a personagem histórica da dimensão familiar e humana.
The Trials of Winnie Mandela encontra-se disponível na Netflix e constitui uma nova oportunidade para revisitar uma das figuras mais controversas e influentes da história política contemporânea da África do Sul.
