Tinha planeado, para esta semana, escrever um artigo sobre a política externa turca, que é, na verdade, uma das minhas áreas de especialidade. Depois surgiu, no final da semana, a questão da intolerância política no Uíge, que roubou a minha atenção. Mas acabei por preferir trazer ao debate, esta semana, um assunto que preocupa muita gente, mas, sobretudo, as mulheres, que são aquela franja da sociedade que tem pouca visibilidade e quase não tem voz, mas cujo papel é preponderante para a estabilidade e manutenção de qualquer sociedade.
Mas não estarei a ser justa em colocar esta inquietação apenas no seio das mulheres, quando também homens têm-se mostrado alarmados com a normalização, banalização e expansão dos valores LGBTQ na nossa sociedade, bem como com o aumento da visibilidade das relações homossexuais.
Para mim, que não sou especialista na matéria, mas que, enquanto jornalista, já trabalhei tanto com ONG como com comunidades LGBTQ em Angola, a expansão das relações homossexuais no país está intrinsecamente relacionada, na minha perspectiva, com a proliferação das ONG, que atingiu o seu pico no final da guerra, isso no início dos anos 2000. As ONG, que normalmente trabalham com as comunidades, são patrocinadas por doadores que têm na agenda a protecção dos direitos das comunidades LGBTQ como uma das suas principais prioridades.
É através do trabalho destas ONG, cujos doadores são homens ricos com uma agenda própria, que o soft power ocidental entrou na nossa sociedade de forma sorrateira e sem pedir licença a ninguém.
O soft power faz parte dos conceitos de poder desenvolvidos pelo cientista político norte-americano, Joseph Nye, que defende a ideia de que, nas relações internacionais, os Estados não precisam obrigar ninguém a fazer aquilo que não quer. Nye afirma que, através das ferramentas do poder, é possível influenciar outros actores para alcançar aquilo que se pretende.
Nye divide o poder em três conceitos: o soft power, o poder mais brando, que se resume na capacidade de atrair e persuadir outros através da cultura, dos valores, da política e da legitimidade; o hard power, que é a capacidade de coagir outros através do uso da força militar ou de recursos económicos, como as sanções; e, por último, o smart power, que não é mais do que uma combinação dos dois anteriores.
É aqui onde, para mim, começa a ficar interessante a discussão.
Com o uso do soft power, vendendo valores culturais novos que privilegiam as liberdades em sociedades tradicionais, com regras rígidas tanto para homens como para mulheres, a capacidade de atracção é bastante grande, principalmente no seio dos mais jovens. É como roubar o rebuçado da boca de uma criança.
E, é precisamente neste ponto que começo a olhar para aquilo que em minha opinião está a acontecer na nossa sociedade.
Segundo os entendidos na matéria, a homossexualidade existe desde que o mundo é mundo. A Bíblia fala-nos da história de Sodoma e Gomorra, duas cidades bíblicas destruídas por Deus por desrespeitarem as suas regras. A Bíblia considera a luxúria como um dos sete pecados capitais. Existem filmes e livros que relatam sociedades onde homens influentes que entregam-se aos prazeres carnais com homens jovens, cujas festas são regadas de luxo e álcool, enquanto as mulheres se desesperam à espera que os maridos cheguem à casa.
O que me parece e me preocupa é que estamos a assistir, em Angola, a um novo tipo de prostituição, onde as famosas catorzinhas foram substituídas pelos castorzinhos. Rapazes novos, com ou sem tendência biológica para a homossexualidade, que, devido às dificuldades da vida, acabam por se envolver em relações homossexuais com pessoas mais velhas e com posses.
E aqui faço uma distinção que considero importante: uma coisa é a orientação sexual de uma pessoa; outra coisa é uma relação que nasce da necessidade económica, da vulnerabilidade ou do interesse financeiro. É esta segunda realidade que, na minha opinião, também precisa de ser discutida.
A minha ideia, e com base em estudos, é que a promoção dos direitos LGBTQ pode constituir uma das “armas” do soft power ocidental. O homossexualismo é muito comum nas culturas ocidentais, onde a relação entre pessoas do mesmo sexo é um direito legal. Não é o nosso caso de Angola, um país africano, com cultura própria, com uma identidade que ainda está em construção, mas que é própria dos povos que habitam este território chamado Angola.
E é por causa deste choque cultural e, segundo os seus governos, da necessidade de preservação das suas culturas e tradições, que alguns países africanos passaram a criminalizar as relações entre pessoas do mesmo sexo. É assim no Gana, é assim no Uganda e é assim no Burkina Faso.
Com a promoção da democracia, o Ocidente não está apenas a vender liberdades que se resumem à liberdade de expressão, ao direito à manifestação, à igualdade de direitos e a outras liberdades individuais. Com a caderneta democrática, o Ocidente, e aqui refiro-me à União Europeia e aos Estados Unidos, está também a exportar os seus hábitos, costumes e modelos sociais. Ou seja, a promoção dos valores democráticos significa também, em muitos casos, a circulação e a influência de determinados modelos culturais.
Apesar de me considerar uma pessoa de mente aberta, open mind, acho que, na vida, existem limites para tudo, inclusive para sermos livres. Costuma-se dizer que a nossa liberdade termina ali onde começa a liberdade do outro.E eu vejo, nessa banalização das relações homossexuais em Angola, um ataque directo às famílias, um ataque às nossas tradições e também um ataque às mulheres, que são aquelas que mais sofrem quando os maridos resolvem abandonar o lar para se entregar aos prazeres da carne.
Eu sou mãe e, honestamente, há muita coisa nesta sociedade que, a meu ver, não vai bem. E mais preocupante é que não vejo ninguém preocupado com o assunto.
Por exemplo, eu não percebo por que razão o Parlamento angolano discutiu e aprovou a divulgação de vídeos íntimos na Internet como crime de violência doméstica, e se esqueceu de discutir o aumento da violência sexual contra crianças, que tem, entre outras causas, a facilidade de acesso à pornografia na Internet. É preciso começarmos a discutir estas coisas.
