*PHINDILE KUNENE
Pergunte a qualquer político progressista e dir-lhe-á que este é um mau momento para a cooperação internacional.
Cidadãos de muitas partes do mundo repreendem os seus governos por se concentrarem demasiado nos assuntos externos, em detrimento das questões internas.
Da Alemanha aos EUA, e do Reino Unido à África do Sul, os movimentos que defendem políticas de «o meu país primeiro» estão a ganhar apoio e encaram a cooperação internacional como uma distracção dos problemas mais urgentes, como a criminalidade, o desemprego e a degradação dos serviços públicos.
Cá em casa, o movimento March and March e a sua líder, Jacinta Ngobese-Zuma, falam de um “pan-africanismo falso” e questionam por que razão se deveria esperar que a África do Sul “carregasse toda a África”.

Institucionalmente, este recuo em relação ao internacionalismo é evidente na crise orçamental que afecta a ONU e na redução da ajuda internacional, à medida que os países se concentram mais nos seus próprios problemas internos, incluindo as guerras nos países vizinhos.
É por isso que a reunião de 16 países, representando mais de 400 milhões de pessoas, realizada recentemente em Durban, é tão importante. Na 46.ª Cimeira da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), a África do Sul assumiu a liderança do bloco pelos 12 meses seguintes.
Em eThekwini, ministros e chefes de Estado proferiram discursos após discursos, destacando as conquistas do bloco. A deposição de coroas de flores aos pés da estátua de OR Tambo, na marginal de Durban, as raízes zimbabueanas de Albert Luthuli e a resistência determinada das mulheres africanas contra o monopólio municipal da cerveja foram cuidadosamente integradas no programa da cimeira.
Numa sala cheia da Universidade de KwaZulu-Natal (UKZN), em Westville, o Presidente Cyril Ramaphosa evocou o sonho de Pixley ka Izaka Seme de um continente libertado das correntes da dominação colonial. Recordou também como o bloco foi criado para combater o colonialismo e o apartheid e reduzir a dependência económica em relação à África do Sul governada pelo regime branco.
Ramaphosa afirmou que a região pagou um preço elevado por esta solidariedade moral: a campanha de sabotagem e desestabilização de Pretória teve como alvo aldeias, pontes, escolas, hospitais e linhas eléctricas. A derrota final do apartheid na Namíbia e na África do Sul foi apresentada como um dos pontos altos da história do bloco regional.
Dentro das salas do complexo iNkosi Albert Luthuli, havia um forte sentimento de que a SADC tem muito para mostrar depois de décadas de cooperação regional.
As conquistas foram muitas.
Desde a criação de uma zona de comércio livre, o comércio entre os países do bloco aumentou de 16%, em 2008, para pouco mais de 20%, em 2025. A maior parte deste comércio corresponde a produtos manufacturados, combustíveis, maquinaria, veículos e produtos agrícolas. O relatório da União Africana sobre o estado da integração continental colocou a SADC como líder incontestável no comércio intra-africano e na integração dos mercados.
No sector da energia, empresas de electricidade de 12 países, incluindo Angola, Tanzânia, Botsuana, Lesoto e África do Sul, fazem parte do Southern African Power Pool, uma iniciativa destinada a promover um fornecimento de energia fiável e sustentável em toda a região.
O bloco está também a criar instituições para enfrentar aquilo a que Ramaphosa chamou vulnerabilidades partilhadas. As recentes cheias afectaram mais de dois milhões de pessoas em toda a região, destruindo casas e perturbando os meios de subsistência, sobretudo no Malawi e em Moçambique.
A resposta do bloco é o Centro de Operações Humanitárias e de Emergência da SADC (SHOC), sediado em Nampula, Moçambique, encarregado de coordenar a resposta regional durante fenómenos climáticos extremos.
A integração também ganhou ritmo no transporte rodoviário de mercadorias e na logística, com seis postos fronteiriços de paragem única já em funcionamento na região. Estes foram concebidos para digitalizar e harmonizar os procedimentos fronteiriços, reduzir os tempos de espera e diminuir o custo da circulação de mercadorias na região.
São conquistas importantes e concretas. Mas a questão mais importante é saber se a integração regional está a avançar suficientemente depressa para responder à dimensão e à urgência dos desafios da região. Nesse aspecto, ainda há um caminho considerável a percorrer.
Em toda a África Austral, o desemprego entre os jovens é astronomicamente elevado, ultrapassando os 60% na África do Sul e os 40% no Botsuana e na Namíbia. Com a indústria transformadora ainda muito aquém da meta do bloco para 2030, de representar 30% do PIB, o desemprego poderá tornar-se uma característica marcante da região durante muito tempo.
A indústria continua concentrada na potência económica da região, a África do Sul, um factor que perpetua os antigos padrões de migração laboral.
A enorme riqueza mineral da região também não se traduziu em prosperidade. Vejamos a República Democrática do Congo, que representa mais de 70% da produção mundial de cobalto, mas onde mais de 60% do processamento mundial ocorre na China. De Rustenburg a Kolwezi, os antigos padrões de extracção continuam.
Quase 60 milhões de cidadãos da região vão para a cama sem saber ao certo de onde virá a sua próxima refeição.
Pior ainda, a circulação de mercadorias na região continua dolorosamente lenta. Investigadores da Universidade de Stellenbosch descobriram que os camiões que atravessam as fronteiras da África do Sul com Moçambique, o Zimbabué e o Botsuana esperam, em média, um dia inteiro.
Em Beitbridge, o posto fronteiriço terrestre mais movimentado de África, os tempos de espera chegam a atingir 57 horas. Estes estrangulamentos dificultam o comércio regional e prejudicam a competitividade das exportações da região.
Estes não são apenas retrocessos económicos; têm também sérias implicações políticas. As dificuldades económicas alimentam a política incendiária da March and March. O desemprego, a desigualdade e as economias estagnadas criam bodes expiatórios convenientes.
A investigação do Afrobarometer diz-nos que os africanos querem uma maior integração em matéria de comércio, embora receiem a circulação de trabalhadores através das fronteiras. Esta é uma base sólida para um projecto regional em que as oportunidades económicas e a prosperidade sejam distribuídas de forma mais equitativa.
Ao encerrar uma reunião com os seus homólogos regionais, Ronald Lamola, ministro das Relações Internacionais e da Cooperação, advertiu que a SADC não pode dar-se ao luxo de viver da glória das suas conquistas passadas. Lamola tem razão. O projecto regional deve ser avaliado pelo que consegue alcançar no presente, para não correr o risco de ser considerado um projecto pessoal das elites económicas e políticas.
Alguém precisa de ser lembrado disso. Mais de metade da população da região tem menos de 20 anos. Para esta geração, as heróicas lutas de libertação são conhecidas através da história oral ou das estantes das bibliotecas.
Esta é uma geração cuja fé na democracia está a esmorecer e para a qual a concretização da Visão 2050 da SADC é o que mais importa.
*Phindile Kunene é investigadora e estrategista de comunicação ligada ao Ministério das Relações Internacionais e Cooperação da África do Sul, cujos textos representam a sua própria opinião, e não necessariamente uma posição oficial do ministério em que trabalha. Kunene escreve artigos de opinião no jornal online, Sowetan.