*By: Ana Margoso
O país acompanha com expectativa a ideia de um congresso do MPLA com múltiplas candidaturas. Até quem não é militante do partido demonstra um interesse pouco habitual pelos assuntos dos camaradas. Talvez porque é o MPLA que governa Angola há cinco décadas e, de uma forma ou de outra, influencia a vida de todos nós. Ou talvez porque continua a ser um forte candidato a vencer as eleições gerais do próximo ano.
O interesse tornou-se ainda maior com a possibilidade de João Lourenço, ainda Presidente da República, poder disputar a liderança do partido com o todo-poderoso general Higino Carneiro. Os grupos começam a formar-se dentro e fora das redes sociais. Multiplicam-se as discussões sobre o país, sobre o percurso político de cada um e sobre aquilo que poderá acontecer nos próximos meses.
De facto, tratando-se de um partido historicamente fechado, de matriz marxista, onde os assuntos internos sempre foram resolvidos com grande reserva, ver o MPLA admitir publicamente a possibilidade de múltiplas candidaturas é, no mínimo, um acontecimento político interessante. O tema ganhou tal dimensão que até os partidos da oposição parecem ter colocado em segundo plano a preparação das eleições gerais, enquanto todas as atenções permanecem concentradas naquele que será o próximo presidente do MPLA.
Mas é precisamente aqui que, na minha opinião, começa a confusão.
Existe a ideia quase que generalizada de que o congresso do MPLA será uma espécie de eleição semelhante às eleições gerais, em que vários candidatos disputarão a liderança do partido. Porém, convém distinguir uma coisa da outra. O congresso é uma actividade interna do partido e rege-se pelos seus estatutos, enquanto as eleições gerais obedecem às regras estabelecidas pela Constituição e pela lei eleitoral.
É importante recordar que, nas eleições gerais angolanas, os cidadãos votam em listas partidárias. O cabeça de lista do partido vencedor torna-se automaticamente Presidente da República. Ou seja, a escolha do futuro candidato presidencial do MPLA acaba por assumir uma importância decisiva para o futuro político do país.
No caso do MPLA, quem propõe o candidato à presidência do partido é, tradicionalmente, o Bureau Político, órgão que dirige a organização entre congressos.
Na prática, é este órgão que indica o nome a ser submetido ao Comité Central, que, por sua vez, procede à respectiva aprovação. E, segundo aquilo que tem sido a prática ao longo dos anos, o Bureau Político apresenta apenas um nome e não várias candidaturas.
Por isso, ao contrário do que muitos imaginam, dificilmente assistiremos, em Dezembro, a uma verdadeira disputa eleitoral dentro do congresso do MPLA. O mais provável é assistirmos à eleição do candidato previamente indicado pelos órgãos dirigentes do partido. Até ao momento, aliás, a única candidatura aprovada pela comissão organizadora do congresso é a de João Lourenço, tudo indicando que continuará a liderar o MPLA.
Quem será então o candidato do MPLA nas eleições gerais de 2027?
É precisamente aqui que surge uma questão muito mais relevante.
Estando João Lourenço constitucionalmente impedido de concorrer a um terceiro mandato como Presidente da República, quem será então o candidato do MPLA nas eleições gerais de 2027?
Apesar das muitas especulações e dos vários nomes que têm circulado na praça pública, alguns avançados por observadores, outros por simples curiosos, a verdade é que muito pouco se sabe. Até agora, praticamente nada transpirou para o espaço público. Chegado até aqui, fico com a impressão de que toda esta história das múltiplas candidaturas poderá não passar de uma grande operação de distração.
Porquê?
Porque custa-me acreditar que figuras da dimensão política do general Higino Carneiro, que conta com o apoio de um histórico dirigente como Fragata de Morais, ou o engenheiro António Venâncio, só para citar estes, desconheçam as regras internas do seu próprio partido. Todos eles pertencem às fileiras do MPLA desde muito antes da independência nacional. Conhecem profundamente o funcionamento dos órgãos internos.
Por isso, o que me parece é que andamos todos distraídos a discutir um congresso cujo desfecho dificilmente será uma surpresa, quando a verdadeira questão continua por responder: quem será o escolhido para liderar a lista do MPLA nas eleições gerais e, consequentemente, tornar-se Presidente da República caso o partido volte a vencer?
Num artigo que publiquei no início do mês passado, com o título “Transição geracional e a bicefalia: o modelo angolano para uma mudança sem ruptura”, na minha página de Telegram Ana Margoso News, defendi a ideia de que o MPLA apostará, em 2027, num candidato relativamente jovem, cuja principal missão será assegurar uma transição geracional sem sobressaltos e garantir a continuidade do projecto político iniciado por João Lourenço em 2017. Esse candidato deverá reunir duas características fundamentais: ser merecedor da confiança política da velha guarda do partido e conhecer minimamente os dossiers mais importantes do país.
Embora as minhas fontes continuem a demonstrar um “estranho” desconhecimento sobre este assunto, insistindo que se trata de uma decisão reservada exclusivamente ao “Chefe”, mantenho as minhas fichas no jovem Presidente da Assembleia Nacional, Adão de Almeida. O seu percurso político e o perfil discreto encaixam, a meu ver, no tipo de liderança que o MPLA poderá procurar para abrir um novo ciclo político.
É apenas um palpite.
Mas, por vezes, é precisamente dos palpites que começa a nascer a história.
*(Jornalista e especialista em Ciência Política e Relações Internacionais)
