Recep Tayyip Erdogan chegou ao cargo de primeiro-ministro da Turquia em 2003, depois de ter estado à frente da prefeitura de Istambul entre 1994 e 1998. Durante os primeiros anos enquanto primeiro-ministro, Erdogan manteve estreitos laços de cooperação com a União Europeia e com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A lua-de-mel entre a Turquia e os países aliados começou a azedar a partir de 2011, quando Ankara passou a exigir uma intervenção internacional na Síria, defendendo uma resposta internacional semelhante à que tinha sido adoptada pela comunidade internacional na Líbia de Muammar Kadafi, após a revolta da Primavera Árabe.
Erdogan, que no passado manteve boas relações com Bashar al-Assad, que entretanto, havia substituído o pai no poder na Síria, exigia agora que o país vizinho fosse alvo de uma intervenção internacional para derrubar o Governo instalado em Damasco.
Em 2011, com a chegada de milhares de refugiados à Turquia, oriundos da Síria e de outros países afectados por guerras ou crises políticas, resultado da Primavera Árabe, Ankara, que numa primeira fase resolveu receber os refugiados de braços abertos, considerando-os como familiares, viu o número aumentar significativamente até 2015, quando o país enfrentava também dificuldades económicas.
No auge da crise migratória de 2015, a Turquia acolhia cerca de 2,5 milhões de refugiados sírios, de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). O peso económico e social desse acolhimento deu a Erdogan uma poderosa carta de negociação com Bruxelas. Ankara exigia apoio financeiro e concessões políticas para, em troca, continuar a conter os fluxos migratórios para a Europa. Caso contrário, o Presidente turco ameaçava abrir as fronteiras turcas com a Europa e deixar passar milhares de refugiados e migrantes para a Europa.

Presidente Turco, Recep Tayyip Erdogan
A partir de 2015, a Turquia passou a fazer um jogo bastante interessante nas negociações com Bruxelas, recorrendo, sempre que necessário, à pressão para tirar benefícios que lhe eram favoráveis e usando uma política mais suave quando isso lhe convinha e, às vezes, as duas ao mesmo tempo.
Herdeira do Império Otomano, a Turquia é um país de grande importância geopolítica e geoestratégica. O país conecta os continentes europeu e asiático e é uma das maiores potências da região do Médio Oriente. Sob a liderança de Erdogan, o país voltou a ganhar destaque no cenário internacional, também por causa dos fluxos migratórios para a Europa, que têm a Turquia como principal canal de entrada.
A partir de 2011, Erdogan passou a usar a migração como arma de pressão contra os europeus.
O sistema anti-mísseis russo e as sanções norte-americanas
Entre 2011 e 2020, a relação entre turcos, europeus e americanos, sobretudo durante a primeira administração Trump, tornou-se difícil. Em 2014, Recep Tayyip Erdogan foi eleito Presidente do país, nas primeiras eleições presidenciais por sufrágio directo, consideradas livres e justas pela União Europeia. A partir daí, Erdogan passou a concentrar cada vez mais poder, processo que culminou com as alterações constitucionais aprovadas em 2017 e que entraram em vigor em 2018, quando a Turquia deixou de ter um sistema parlamentar, no qual o primeiro-ministro era o chefe do Governo, e passou a ter um sistema presidencialista, concentrando no Presidente grande parte dos poderes do Executivo.
Depois destas mudanças radicais e inesperadas, Erdogan passou a ser abertamente acusado por eurodeputados de agir como um ditador, enquanto Ankara era vista, cada vez mais, como um país onde os direitos humanos e a liberdade de expressão eram desrespeitados e postos em causa.
As acusações aumentaram de volume quando, em 2016, uma tentativa de golpe de Estado foi reprimida no país. Seguiu-se um dos períodos mais difíceis da história recente da Turquia, marcado por uma vasta vaga de detenções e perseguições. Entre os visados estavam opositores do Governo, militares, juízes, magistrados e professores, bem como académicos e apoiantes de Fethullah Gülen, um influente clérigo muçulmano turco que, a partir dos Estados Unidos, liderava uma extensa rede de escolas, organizações e seguidores conhecida como movimento Gülen. Gülen, antigo aliado de Erdogan, foi acusado por Ankara de estar por detrás da tentativa de golpe, acusação que sempre rejeitou.
Em 2018, depois de anos de negociações com os Estados Unidos para a aquisição de caças F-35 e sistemas de defesa antimíssil Patriot, a Turquia decidiu comprar à Rússia os sistemas S-400, numa demonstração da sua crescente aposta na autonomia estratégica e na redução da dependência em relação à OTAN. A decisão provocou uma forte reacção de Washington, que, além de impor sanções à Turquia ao abrigo da legislação norte-americana, excluiu o país do programa dos F-35, impedindo-o de adquirir os caças de quinta geração.
Nesta altura, a Turquia, que já estava com as relações tremidas com Bruxelas, viu outro aliado afastar-se, tudo porque Ankara procurava uma certa autonomia estratégica fora do círculo da OTAN, o que a levou a aproximar-se da Rússia, com quem estreitou relações, acabando por irritar ainda mais Washington e Bruxelas.
Depois de uma nova crise de refugiados, em 2020, ter deteriorado ainda mais as relações entre turcos e europeus, com Erdogan a permitir a saída de migrantes em direcção às fronteiras europeias e a usar novamente a pressão migratória nas negociações com a Europa, a guerra na Ucrânia, que teve início em Fevereiro de 2022, acabou por aproximar a Turquia dos seus antigos aliados.
Devido à crise dos mísseis de defesa antiaérea que afecta a Ucrânia, Trump aproveitou a sua participação na última Cimeira da OTAN, realizada de 7 a 8 de Julho em Ankara, para manter um encontro particular com o Presidente turco, que serviu para fazerem as pazes. Trump anunciou que Washington levantaria as sanções impostas à Turquia pela compra dos S-400 e que iria considerar permitir novamente a venda de F-35 a Ankara.
A aproveitar este bom momento, num toque de mestre, Recep Tayyip Erdogan voltou a sacar do bolso a lista negociada em Bruxelas, em 2016, para lembrar aos europeus que era um bom momento para Bruxelas actualizar a união aduaneira entre os dois países e promover a liberalização dos vistos para cidadãos turcos, dois pontos discutidos no acordo UE-Turquia de 2016.
A aproveitar este bom momento, num toque de mestre, Recep Tayyip Erdogan voltou a sacar do bolso a lista negociada em Bruxelas, em 2016, para lembrar aos europeus que era um bom momento para Bruxelas actualizar a união aduaneira entre os dois países e promover a liberalização dos vistos para cidadãos turcos, dois pontos discutidos no acordo UE-Turquia de 2016.