O lendário músico maliano Salif Keita decidiu cancelar as suas actuações comerciais previstas para a África do Sul, numa decisão motivada pelos recentes relatos de violência xenófoba e ataques contra migrantes africanos no país.
A decisão afecta directamente o Mangaung African Cultural Festival (MACUFE) 2026, em Bloemfontein, onde Keita estava anunciado como uma das principais atracções internacionais. O festival está previsto para decorrer entre 3 e 13 de Setembro, reunindo música, teatro, dança, cinema, artes visuais, literatura e outras manifestações culturais africanas.
“Não estou a fechar a porta à África do Sul. Estou a fechar a porta à violência”, disse o músico, num comunicado divulgado esta semana, onde explicou que não poderia ignorar os relatos de violência contra cidadãos de outros países africanos.

O artista classificou a decisão como dolorosa e deixou claro que o seu gesto não representa uma rejeição do povo sul-africano. Pelo contrário, afirmou que a sua preocupação está relacionada com a violência e com o tratamento dado aos migrantes que procuram trabalho, segurança e dignidade.
A sua posição foi posteriormente confirmada pela equipa de gestão, através de Carolina Vallejo, da One World Records.
A mensagem de Keita ganha particular peso devido à sua longa relação com a África do Sul e com a luta contra o apartheid. Em 1988, o cantor participou no concerto de homenagem aos 70 anos de Nelson Mandela, realizado no Estádio de Wembley, em Londres.
Para o músico, o espírito de solidariedade que marcou aquele período continua a ser relevante num continente onde as fronteiras nacionais não deveriam sobrepor-se à ideia de uma identidade africana comum.
Conhecido internacionalmente como a “Golden Voice of Africa”, Salif Keita construiu uma carreira de mais de cinco décadas, tornando-se uma das vozes mais reconhecidas da música africana contemporânea.
A sua ligação à questão da xenofobia na África do Sul, contudo, não é nova. Em 2015, Keita colaborou com o grupo sul-africano Ladysmith Black Mambazo na canção United We Stand, Divided We Shall Fall, uma obra que apelava à paz, à unidade e ao fim da violência contra cidadãos africanos estrangeiros.
A investigação académica sobre música e xenofobia na África do Sul identifica essa colaboração como um exemplo do papel que a música pode desempenhar na luta contra a Afrofobia e na promoção do diálogo entre diferentes comunidades africanas.
É precisamente nesse percurso que a actual decisão se insere. Para Keita, a música não deve servir apenas para entreter, mas também para questionar injustiças e defender valores humanos.
O Departamento de Desporto, Artes, Cultura e Recreação de Free State confirmou a retirada do artista e lamentou a decisão. Apesar da perda de uma das principais atracções internacionais, as autoridades garantem que o MACUFE 2026 continuará conforme o previsto.