A notícia avançada pela plataforma Africa Confidential, segundo a qual a UNITA terá contratado um lobista norte-americano para representar os seus interesses em Washington, levou a Southern Bridges a aprofundar a investigação sobre o profissional alegadamente escolhido pelo partido do Galo Negro. Os dados recolhidos revelam um percurso fortemente ligado ao sector da defesa e à indústria militar dos Estados Unidos.
O homem em causa é Duncan Sellers, um executivo que trabalhou para algumas das maiores empresas da indústria da defesa norte-americana e que acumulou experiência em programas militares internacionais. A confirmar-se a contratação, a escolha de Sellers indicia uma aposta da UNITA na reactivação dos seus canais de influência em Washington, num momento em que este partido começa a posicionar-se para a corrida eleitoral de 2027.
Sellers construiu a sua carreira na indústria da defesa, tendo desempenhado funções de direcção em empresas como a Lockheed Martin, onde foi responsável pelo desenvolvimento industrial para o Médio Oriente, África e Turquia. Trabalhou igualmente na Tatra Defence, empresa saudita do sector bélico, e preside, desde 2016, à AO Development Company, uma consultora sediada em Washington.
O seu perfil profissional revela uma carreira centrada na promoção de programas de aquisição militar, desenvolvimento de parcerias industriais e expansão de negócios em mercados internacionais, incluindo em África.
A eventual contratação de um profissional com este perfil suscita algumas questões sobre a estratégia externa da UNITA. A escolha de um homem tão inserido nos círculos da defesa e da segurança norte-americanos, em vez de uma figura ligada ao meio diplomático ou académico, poderá indicar que o partido do Galo Negro procura reactivar antigas ligações a Washington, num movimento que lembra os tempos da guerra civil, quando a UNITA mantinha uma relação privilegiada com sectores políticos importantes dos EUA.
Esta aposta não é nova, Jardo Muekália, durante a liderança de Isaías Samakuva, também circulava nos corredores do Congresso americano. Porém, a insistência neste tipo de alianças, sobretudo com figuras provenientes do complexo militar-industrial, sugere que a UNITA continua a olhar para os Estados Unidos com a mesma lógica do período da guerra fria, quando o conflito angolano era visto como um tabuleiro da confrontação Leste-Oeste. Essa abordagem, que já então comprometia a soberania do país ao subordiná-lo a interesses externos, parece não ter sido revista nem actualizada para um momento em que África procura afirmar a sua autonomia face às grandes potências e construir parcerias mais equilibradas e diversificadas.
A opção por um profissional ligado à indústria militar, em detrimento de outras áreas, é, no mínimo, significativa. Reflecte uma aposta em canais de influência que, no passado, estiveram associados a um contexto de conflito e de guerra fria. Num mundo multipolar, onde Angola procura equilibrar parcerias com várias potências, a escolha de Sellers poderá ser interpretada como um sinal de que a UNITA continua a olhar para os EUA como um dos seus principais interlocutores externos — uma opção legítima, ainda que passível de gerar leituras diversas sobre o que isso representa para a imagem e para a autonomia do partido.
Resta saber se esta estratégia trará os frutos pretendidos ou se, pelo contrário, poderá revelar alguma dificuldade da UNITA em se desligar de um passado que, para muitos angolanos, evoca memórias dolorosas.
By: Ana Margoso
