A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reconheceu, na semana finda, que alguns dos principais factores que sustentaram durante décadas o modelo económico europeu deixaram de existir, defendendo uma mudança profunda na estratégia do bloco para recuperar competitividade, investimento e capacidade industrial.
A chefe da Comissão Europeia fez estas declarações em Paris, perante empresários franceses, durante a Rencontre des Entrepreneurs de France, organizada pelo Movimento das Empresas de França (Medef). Na ocasião, von der Leyen afirmou que a economia europeia deixou de poder contar com energia importada a baixo custo, comércio mundial aberto, acesso crescente ao mercado chinês, protecção estratégica dos Estados Unidos e a vantagem tecnológica do Ocidente.
A dirigente europeia apontou os preços elevados da energia, a fragmentação do mercado único, a complexidade das regras e uma concorrência internacional que considera nem sempre equilibrada como alguns dos principais obstáculos ao crescimento das empresas europeias.
A energia tornou-se, segundo von der Leyen, “o primeiro travão” à competitividade e à independência da União Europeia. Os preços europeus são actualmente duas a três vezes superiores aos praticados nos Estados Unidos e na China, enquanto mais de metade da energia consumida no bloco continua a depender de combustíveis fósseis importados.
Perante este cenário, a presidente da Comissão Europeia defendeu que as empresas devem recuperar margem de manobra para investir no curto prazo, enquanto a inovação, o aumento da produtividade e a capacidade de expansão das empresas deverão constituir os motores do crescimento europeu a longo prazo.
Uma das metas apresentadas passa pela redução dos encargos administrativos em 25% para todas as empresas e 35% para as pequenas e médias empresas até 2029. A Comissão Europeia estima que as medidas de simplificação actualmente em preparação possam representar milhares de milhões de euros em poupanças para as empresas.
Von der Leyen colocou igualmente o financiamento no centro da nova estratégia. A presidente da Comissão considera que a Europa dispõe de capital suficiente para financiar uma parte significativa da sua transformação económica, mas que uma parcela demasiado elevada da poupança das famílias permanece depositada nos bancos ou é investida fora do continente.
Segundo a dirigente europeia, existem cerca de 10 biliões de euros em poupanças das famílias europeias mantidos em depósitos bancários, enquanto uma parte significativa da poupança europeia é aplicada fora da União Europeia. A Comissão pretende mobilizar esse capital através da chamada União da Poupança e dos Investimentos, com o objectivo de canalizar mais recursos para empresas e projectos europeus.
A relação económica com a China é outro dos pontos centrais da nova estratégia. Bruxelas pretende reduzir riscos e dependências, mas sem romper os laços comerciais com Pequim. Von der Leyen afirmou que a abertura dos mercados europeus deverá passar a estar associada a condições de reciprocidade, concorrência leal e protecção dos interesses económicos da União.
A presidente da Comissão Europeia defendeu, por isso, uma Europa que “produz, investe e protege”, colocando novamente a capacidade industrial no centro da política económica do bloco.
