Celebrar a independência, a memória e a criatividade africana é o objetivo do Festival PARAÍSO que decorre em Braga. Moçambique e Cabo Verde estão representados.
Em ano de Capital Portuguesa da Cultura, esta terceira edição do Festival PARAÍSO apresenta uma programação diversa que cruza música, cinema, conversas, residências artísticas, visitas guiadas e debates. O artista moçambicano Ruben Zacarias e a cabo-verdiana Banda Monte Cara dão voz a histórias de resistência e identidade africana, num diálogo artístico que atravessa gerações e fronteiras no espaço lusófono.
Um dos destaques é Ruben Zacarias, que realizou uma residência artística na cidade. Através da arte visual, o artista moçambicano propõe novas narrativas sobre a história partilhada entre África e Portugal, explorando memórias silenciadas e identidades africanas.

Em entrevista à DW, explica que a pesquisa surgiu da “necessidade de preencher o vazio” deixado pela ausência de referências à história pré-colonial de Moçambique.
“Faltavam referências socioculturais e políticas.Parece que a história de Moçambique, e não só, de muitos países africanos, começava com a presença dessas forças coloniais naqueles lugares”, aponta, acrescentando que foi “muito curioso penetrar em tantas referências bibliográficas e perceber, a partir do ponto de vista do vencedor, qual era a dinâmica social, o que é que as pessoas faziam, como cantavam, o que dançavam”.
Preservação da memória
A obra cruza arte visual e som, dando voz a figuras e momentos marcantes das lutas de libertação dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). Baseada, por exemplo, em cartas do cónego Alcântara Guerreiro, em obras como Quadros da História de Moçambique e Moçambique num poema seiscentista, e em referências do século V, a criação propõe uma reflexão crítica.
Ruben Zacarias destaca a arte como uma ferramenta fundamental de resistência e preservação da memória.
“Mesmo num tempo mais próximo do nosso, há 50 anos, foi, no fundo, através desse grito de poesia que surgiram os poetas de combate. Tivemos artistas plásticos como Malangatana, que fizeram um trabalho de protesto e que foram presos por causa desses manifestos plásticos e poéticos”, ressalta, sublinhando a capacidade da arte de “penetrar as grandes questões da existência humana e partilhá-las numa linguagem que se caracteriza por alcançar a universalidade”.
Entre a tradição e a inovação
A Banda Monte Cara, com raízes em Cabo Verde, traz à cena uma sonoridade que mistura tradição e modernidade, evocando temas de resistência e orgulho cultural.

O saxofonista Nanutu ressalta o papel do grupo na divulgação da música cabo-verdiana, após o legado de Bana, com direção de Paulino Vieira. Nanutu relembra também que a morna foi reconhecida, em 2019, como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, reforçando o valor da cultura musical.
“Levou algum tempo até que muita gente percebesse o conteúdo, quer das mornas, quer das coladeiras, e dos funanás que estavam a ser desenvolvidos também na sua forma de composição, nas suas letras, falando de uma série de assuntos do dia-a-dia e levando assim a cultura de Cabo Verde para todo o mundo”, afirma, salientando: “não foi fácil passar a mensagem, mas conseguimos”.
O saxofonista aponta também que grande parte dos artistas e instrumentistas cabo-verdianos passou por Monte Cara, destacando, por exemplo, Tito Paris.
Herança cultural
O nome da Banda Monte Cara, inspirado no emblemático monte de São Vicente, simboliza a força e a afirmação da identidade dos povos africanos. Em palco, o grupo renova temas antigos com novos arranjos, preservando a essência da música e adaptando-a aos tempos modernos.
“Mantemos a tradição, a fórmula, mas desenvolvemos e evoluímos para a modernização desta nova forma de tocar. Esta é a parte mais importante: a preservação do que já existiu, não perder a essência, manter a raiz inicial“, reforça.
Além de Ruben Zacarias e a Banda Monte Cara, o festival que celebra os 50 anos das independências dos PALOP, conta ainda com a estreia da ópera Adilson de Dino D’Santiago.
Fonte: DW

