31 de Agosto, 2026
Luanda, Angola
Destaque SADC

Crescimento de grupos anti-imigração expõe desafios sociais e políticos na África do Sul

O crescimento de grupos anti-imigração na África do Sul tem vindo a agravar a tensão em várias regiões do país, com relatos de intimidação contra cidadãos estrangeiros e acções promovidas por movimentos que defendem a deportação de imigrantes em situação irregular.

Segundo informações divulgadas pelo programa Fora da Ordem, alguns destes grupos organizaram manifestações junto de hospitais públicos para impedir o atendimento de imigrantes e realizaram acções em bairros habitados por cidadãos estrangeiros, exigindo a sua saída do país. Em alguns casos, chegaram mesmo a estabelecer prazos para que os imigrantes abandonassem o território sul-africano.

O ressurgimento do movimento conhecido como “March and March” reflecte um sentimento de crescente insatisfação social associado a problemas estruturais que o país enfrenta há várias décadas.

Em entrevista ao programa Fora da Ordem, o especialista Carlos Henriques afirmou que o fenómeno tem as suas raízes no período de transição entre o regime do apartheid e a democracia.

Segundo o analista, para além da questão migratória, o movimento tem estado igualmente associado a episódios de violência xenófoba que, em determinadas circunstâncias, assumem contornos de discriminação racial.

Estima-se que vivam actualmente na África do Sul entre três e quatro milhões de imigrantes, muitos dos quais em situação documental irregular. A maioria é oriunda de países vizinhos, como Moçambique, Zimbabué, Malawi, Botsuana e Uganda.

Desafios económicos e pressão sobre os serviços públicos

Carlos Henriques considera que parte da tensão social resulta das dificuldades enfrentadas pelo Governo sul-africano na expansão dos serviços públicos desde o fim do apartheid.

Segundo o especialista, sectores como a saúde, o abastecimento de água, o fornecimento de energia eléctrica e as infra-estruturas continuam a enfrentar sérias limitações.

A elevada taxa de desemprego entre os jovens — superior a 45%, de acordo com os dados citados no programa — constitui igualmente um dos factores que alimentam o descontentamento popular num país com cerca de 62 milhões de habitantes.

Henriques sustenta ainda que os casos de corrupção e de má gestão pública reduziram a capacidade do Estado para responder às necessidades da população, agravando a insatisfação social.

Outro factor apontado pelo especialista é o crescimento da economia informal. Segundo explicou, muitos imigrantes desenvolvem actividade em pequenos negócios e no comércio informal, sobretudo cidadãos oriundos da Somália, da Zâmbia e do Zimbabué. Na sua opinião, esta realidade tem reforçado a percepção, entre parte da população, de que os estrangeiros concorrem directamente com os sul-africanos pelas oportunidades de emprego.

Ainda assim, Carlos Henriques sublinha que a crise económica do país tem causas muito mais profundas, relacionadas com o desemprego, a corrupção, o fraco crescimento económico e as dificuldades persistentes na prestação dos serviços públicos.

Na avaliação do especialista, a imigração transformou-se num tema de forte mobilização política, enquanto muitos dos problemas estruturais da África do Sul continuam por resolver.

Fonte: CNN Brasil

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