31 de Agosto, 2026
Luanda, Angola
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O meu amigo João Carlos e os traumas da guerra

A onda e o grau de violência que têm afectado Luanda nos últimos tempos, com assaltos, roubos, assassinatos e outras imoralidades que nos entram pela casa todos os dias e a toda a hora, através dos ecrãs das televisões, jornais, rádios e redes sociais, fizeram-me recuar no tempo e pensar numa conversa que tive com um amigo também jornalista há mais de 20 anos.

Conheci o João Carlos quando estávamos os dois a dar os primeiros passos na profissão, no final dos anos noventa, num dos jornais da capital. Voltei a reencontrá-lo alguns anos mais tarde, quando regressei a Luanda depois de um período ausente. Foi num desses reencontros que o João Carlos contou-me que, tal como muitos dos nossos colegas, também tinha ingressado na universidade e estava a estudar Psicologia numa das instituições de ensino superior da capital.

Quando lhe perguntei porquê Psicologia, numa altura em que a maioria dos nossos colegas tinha escolhido áreas como Direito, Economia ou até Comunicação Social, ele respondeu-me meio a brincar, meio a sério: “Este país tem muitos malucos. A Psicologia será o curso do futuro”, disse rindo.

Confesso que não sei se o meu amigo estava a falar sério ou se estava apenas a brincar. O certo é que nunca mais me esqueci daquela conversa, que na altura parecia quase banal. Hoje, perante a violência que temos assistido em Luanda, tenho pensado muitas vezes nas palavras descontraídas do João Carlos e na falta que os psicólogos fazem ao nosso país e à nossa cidade.

A violência que temos visto nos últimos tempos, pela minha experiência, nunca foi tão brutal. As notícias dão conta de casos de uma violência invulgar. Os títulos tornaram-se cada vez mais sensacionalistas e até chocantes: filho que mata a mãe e enterra o corpo numa fossa dentro de casa; jovem que, não se sabe por que razão, ou eventualmente sob efeito de alguma droga, decide chacinar uma família inteira; ou ainda o pai que mata o filho, degolando-o, porque comeu-lhe o jantar.

Isto sem falar dos casos de violência de cariz sexual, onde um número cada vez maior de progenitores a violarem as próprias filhas, ou adultos que cometem abusos contra crianças, vem crescendo assustadoramente. São notícias de uma perversidade que nos deixam a questionar o tipo de sociedade que estamos a construir e a temer pelo futuro dos nossos filhos.

Para mim, uma parte desta violência tem ainda uma ligação directa com os 27 anos de guerra civil que assolaram o país. Penso que o meu amigo tinha razão quando falava da importância dos psicólogos para a nossa sociedade. Não porque existam de facto muitos “malucos”, como ele dizia na brincadeira, mas porque uma sociedade não se cura simplesmente com discursos, fingindo que as consequências do conflito não existam ou que, simplesmente, desapareceram.

Infelizmente, continuamos a ser um país que além de precisar de se curar dos traumas da guerra, precisa ter de lidar de forma séria com as consequências advindas do conflito. Infelizmente, a meu ver, somos uma sociedade que não criou mecanismos suficientemente fortes e bem alicerçados para lidar com os efeitos causados pelos anos de violência, para reconstruir aquilo que a guerra destruiu.

Penso que, com políticas bem pensadas, estratégias montadas a longo prazo e sem pressa de apresentar resultados imediatos, talvez consigamos começar a resolver este problema. E é precisamente aqui onde os psicólogos devem desempenhar um papel fundamental.

Embora reconheça que tanto o Governo como as organizações da sociedade civil tenham feito esforços importantes no sentido de ajudar a sociedade a ultrapassar esta fase difícil, a verdade é que muitas dessas iniciativas não tiveram a profundidade necessária, nem a continuidade que o problema exigia. Hoje estamos, de certa forma, a pagar a factura de problemas que foram sendo adiados.

A guerra deixou marcas profundas nas famílias angolanas. Milhares de jovens perderam a vida durante o conflito, deixando viúvas que, à sua maneira, tiveram de assumir o papel de pai e mãe dentro de casa. Temos hoje muitas famílias em Angola onde a responsabilidade que tradicionalmente era atribuída ao chefe de família é totalmente assumida por uma mulher que, para além de cuidar do lar, precisa sair todos os dias para garantir o sustento dos filhos.

Essa realidade obriga muitas mães a passarem grande parte do tempo fora de casa, reduzindo o acompanhamento diário das crianças. Como consequência, temos uma geração de jovens que cresceu muitas vezes sem a presença constante de um adulto de referência, acabando por aprender a viver e a tomar decisões praticamente sozinha.

As escolas, onde durante muito tempo os professores desempenharam o papel de uma segunda referência familiar, também atravessam uma crise de identidade e de influência na formação dos jovens. As igrejas, que deveriam ser espaços de orientação espiritual e moral, em muitos casos transformaram-se em lugares onde algumas pessoas procuram respostas para tudo, menos propriamente uma aproximação com Deus.

É por isso que acredito que a presença de psicólogos nas nossas escolas, nos centros médicos, nos hospitais e até nas comunidades poderia ser um passo importante. Profissionais preparados que pudessem ouvir uma criança, acompanhar um jovem ou apoiar uma família, poderiam ajudar a tratar feridas que muitas vezes permanecem escondidas por anos.

Talvez não resolvêssemos tudo de imediato, mas estaríamos a atacar o problema na sua raiz. Porque há feridas que não desaparecem apenas com o tempo. Algumas precisam de ser identificadas, acompanhadas e tratadas. E talvez esse seja o caminho que ainda falta percorrer para começarmos a curar os traumas que a guerra deixou na nossa sociedade.

1 Comment

  • Cristiano Paposseco 21 de Julho, 2026

    Boa reflexão, realidade que vivemos

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