As últimas notícias que nos chegam do “Kremlin”, entenda-se, da sede do MPLA, dão conta de que, em Dezembro, quando terminar o congresso deste partido, Angola ficará a conhecer o nome do futuro presidente do MPLA e do candidato deste partido às eleições gerais de 2027, e o seu nome, segundo fontes, não será João Manuel Lourenço. “Um novo candidato, cujo nome não poderei avançar, porque não sei, já foi escolhido e será ele o presidente do partido e o candidato para as eleições gerais de 2027”, disse uma fonte da Southern Bridges.
De acordo com a fonte, as coisas terão-se complicado um pouco com a visita privada que o ainda Presidente da República efectuou à República Federativa do Brasil, onde João Lourenço se submeteu a alguns exames médicos. “Na visita privada que o Presidente fez ao Brasil, os médicos terão aconselhado o Presidente a uma rotina mais tranquila do que aquela que ele tem vindo a levar desde que assumiu a Presidência da República, em 2017”, avançou ainda a fonte que temos vindo a citar.
Fazendo fé na nossa fonte, o MPLA vai eleger, em Dezembro, aquele que será então o presidente do partido e cabeça-de-lista para as eleições de 2027, cujo nome será proposto pelo Bureau Político e ratificado pelo Comité Central, e não apenas o candidato à presidência do partido, tal como fizemos menção num outro artigo publicado neste portal.
Devido a todo este secretismo em torno da divulgação do nome do substituto de João Lourenço, acreditamos que se trata de uma figura não consensual, tanto nas fileiras dos camaradas como também fora das hostes deste partido. Estando a pouco mais de um ano das eleições gerais de 2027, o nome do candidato dos camaradas já não deveria ser um segredo guardado a sete chaves.
Para alguns analistas da nossa praça, a incógnita é indicativa de que Lourenço ainda não tem um nome para o suceder. Para outros, as políticas implementadas por Lourenço desde que assumiu o poder, como a sua aposta na juventude, terão criado celeumas junto dos seus companheiros de armas, que defendem a continuação, por mais alguns anos, da geração que tem conduzido o país até agora. “Para alguns mais velhos, essa aposta do Presidente Lourenço não foi das mais acertadas, porque pensam, esses mais velhos, com bastante influência no partido, que a sua geração ainda está em condições de continuar a mandar no país”, disse-nos uma outra fonte.
Mara Quiosa seria uma candidata interessante
A chegada e a ascensão da actual vice-presidente do MPLA, Mara Quiosa, dentro das estruturas centrais do poder não passaram despercebidas àqueles que acompanham com particular atenção a política doméstica. De acordo com a biografia oficial, Quiosa, que acabou de completar 46 anos de idade, é licenciada em Sociologia e tem um mestrado em Governação e Gestão Pública, ambos pela Universidade Agostinho Neto.
Nos bastidores diz-se que Quiosa terá iniciado a sua vida política activa no Sambizanga, onde trabalhou com o conhecido general José Tavares, que foi presidente da Comissão Administrativa e administrador do município, isso nos anos 2000, e que, segundo se diz nos bastidores, terá sido pelos braços de Tavares que Quiosa e outros camaradas terão chegado ali, à Avenida Ho Chi Minh.
O nome de Mara Quiosa não tem sido aventado em lado nenhum como uma “boa” candidata para liderar os camaradas. Mas, porque gostamos dos improváveis, a política tem mais prós do que contras caso fosse indicada para dirigir os destinos do partido dos camaradas e, consequentemente, ser a sua candidata às eleições de 2027.
Se não, vejamos: tem uma carreira política despida de escândalos e não tem o seu nome associado a casos de corrupção. É uma jovem mulher, num país onde a maioria da população é jovem e mulher. Quiosa, que é formada na principal universidade pública do país, tem ao pé de si aqueles que eu chamaria os “guardiões” do poder, onde se destaca a figura do secretário-geral, Paulo Pombolo, e outras figuras próximas do Presidente Lourenço, que advogam um país liderado por jovens, com a velha guarda nos bastidores a orientar os mais novos.
Muitos destes “guardiões” entraram para a vida política e militar ainda muito jovens, tendo, por isso, acumulado muita experiência, e cuja missão hoje é fazer uma passagem de testemunho para uma geração mais nova, sem sobressaltos.
Contra uma provável candidatura de Quiosa concorre o facto de ser também mulher e jovem, num país conservador que ainda vê a mulher jovem como aquela que deve assumir papéis coadjuvantes e não de poder. Também poderá concorrer contra uma candidata com o perfil de Quiosa a falta de experiência e de traquejo para lidar com dossiês mais “complicados”. O facto de ser jovem, que deveria ser visto como uma vantagem para uma candidata jovem, pode afigurar-se desafiador, num país onde a maioria da população jovem tem pressa em ver resolvidos os seus problemas mais básicos, como o acesso ao emprego, à habitação e à educação.
Outrossim, há o facto de Angola não estar a viver um período normal da sua vida enquanto país. Estamos a viver um momento particularmente complicado e interessante, por estarmos numa fase de viragem geracional. Quem quer que assuma a liderança do MPLA, porque o MPLA continua a ser a principal força política do país, precisa de perceber a sensibilidade do momento actual e também a sensibilidade do país que vai liderar, caso vença as eleições gerais do próximo ano.
A mudança geracional é um processo normal em qualquer sociedade, mas ganha maior relevância quando percebemos que não é um processo isolado. Como é óbvio, não está a acontecer apenas dentro das estruturas dos camaradas. Pelo contrário, é uma geração inteira, aquela que muito cedo assistiu ao nascimento de um novo país, que esteve envolvida na guerra civil, que assistiu à instauração do multipartidarismo e ao alcance da paz, à partida de José Eduardo dos Santos, que governou Angola durante 38 anos, e que assistiu à chegada ao poder do terceiro Presidente da Angola democrática, João Lourenço.
Talvez o maior handicap para um candidato jovem a Presidente da República seja a forma como olha para o país e se tem, ou não, sensibilidade suficiente para compreender os grandes desafios que Angola enfrenta hoje. Porque a Angola de hoje não precisa apenas de sangue novo; a Angola de hoje precisa, antes de mais, de gente responsável e comprometida consigo própria e que compreenda, sobretudo, os problemas do país que está a herdar.
Ana Margoso

