O debate em torno do uso da Inteligência Artificial (IA) está no auge! Apesar das suas inúmeras vantagens, a IA é também uma ferramenta que apresenta muitas desvantagens, que não advêm propriamente do seu funcionamento, ou do seu bom ou mau funcionamento, mas do facto de ser uma ferramenta que está ao alcance de qualquer um. Tal como todos sabemos, a vida está dividida entre o bem e o mal, ou entre aqueles que têm ética e aqueles que não a têm. Ou seja, o seu bom ou mau desempenho depende unicamente de quem maneja a máquina.
É esta fragilidade que levanta receios e preocupações e que tem levado personalidades internacionais, como o Papa Leão XIV e o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, a apelarem ao uso ético, responsável e orientado da IA.
A minha relação com a IA, propriamente dita, apenas começou quando, em 2023, regressei a Liverpool para dar continuidade ao meu curso de mestrado, depois de ter sido forçada a estar ausente durante um ano. Foi no meu regresso à universidade que reparei que algumas coisas tinham mudado durante o tempo em que estive fora.
Havia uma grande preocupação a nível de todos os departamentos, incluindo da direcção da própria universidade, em relação ao uso da IA nos trabalhos académicos. Os e-mails vinham acompanhados de anúncios sobre o curso e, outras vezes, eram apenas alertas. Eu não lhes dava muita importância, porque, como era uma semi-analfabeta neste campo, era como se aquele assunto não fosse comigo. Na verdade, até regressar à universidade, eu não tinha consciência da dimensão da revolução que a IA estava a causar na sociedade à minha volta, ou no mundo em geral. Como sempre, em África, as coisas chegavam com algum atraso.
Quando cheguei a Liverpool, no início de Setembro, depois de ter estado uma semana em Londres enquanto acertava a questão da acomodação, fui chamada de urgência para a casa da minha amiga Ali, que vou preferir tratar aqui pelo último nome, porque estava aflita devido a um conflito que estava a ter com a universidade em que ambas estudávamos.
A minha amiga e colega de universidade é originária de um país do Médio Oriente, com regras muito apertadas, mas do que estudar ela aproveitava todos os momentos para se divertir. A Ali adorava jantar fora, ir aos pubs, às compras, ou seja fazer tudo aquilo que não estava habituada a fazer no seu país. A minha amiga precisava dos meus conselhos e, quiçá, da minha ajuda para lidar com a situação que tinha em mãos.
Posta em sua casa, a minha amiga resumiu-me o que estava a tirar-lhe a paz, a faculdade estava a chatear-lhe a cabeça por causa de trabalhos que tinha submetido no ano anterior, dos quais tinha sido aprovada e que agora, por causa destes trabalhos estava a ser acusada de fraude e ameaçada de expulsão.
Foi assim que, no dia combinado e à hora marcada, eu estava à frente do edifício, no campus universitário, onde teríamos o encontro com o vice-chanceler para que o assunto fosse resolvido de uma vez por todas.
A minha ignorância em relação à Inteligência Artificial era tal que eu nunca tinha ouvido falar do ChatGPT, nem sequer das suas muitas vantagens e desvantagens. Tudo mudou a partir do encontro na universidade, em que participei como testemunha.
Durante o encontro, a minha companheira foi submetida à prova dos nove. Sentada ao meu lado, do lado oposto de um grande ecrã ligado, onde eram projectadas imagens de um dos muitos trabalhos que tinha submetido no Canvas (a plataforma usada na universidade para tudo, desde a submissão de trabalhos aos calendários, informações, convites, mensagens dos professores, apresentações, etc.), e que tinham sido aprovados, alguns trechos estavam assinalados a amarelo e azul.
A tarefa atribuída a Ali era simples: tinha de explicar ao vice-chanceler, cuja expressão demonstrava impaciência, o que queria dizer em cada ponto destacado. No início a minha amiga ainda fez um esforço para argumentar, mas percebeu-se logo, à primeira tentativa, que não entendia nada daquilo. A minha amiga foi forçada a retirar a matrícula para não forçar a Universidade a ter de expulsá-la.
Foi assim que descobri, mais tarde, que o ChatGPT pode criar fontes imaginárias que não existem. Que pode criar parágrafos com argumentos inventados. E, por saber disso, e por um número crescente de estudantes estar a ser apanhado nesta teia, a universidade passava a vida a enviar e-mails aos estudantes a alertar-nos para os perigos do uso da Inteligência Artificial, que poderia constituir uma fraude, principalmente no caso do ChatGPT.
Foi por esta razão que a instituição contratou um ex-polícia de Manchester, o Phillipe, cuja missão era andar pela universidade a instruir os estudantes como eu, sobretudo, os estudantes internacionais, a fazerem um melhor uso da IA, sem caírem em fraude.
Porque tenho vindo a acompanhar, com alguma preocupação, o debate em torno da IA em Angola, onde algumas pessoas são taxativas em afirmar que quem usa Inteligência Artificial é uma autêntica fraude, decidi escrever estas linhas para discordar deste generalismo e para dizer, mais uma vez, que o problema não está no uso da ferramenta em si, mas na forma como ela é usada, tal como referi acima.
A Inteligência Artificial surgiu para nos tornar mais ágeis e eficazes, e não the other way around. No caso da minha colega e amiga, ela não foi vítima da IA. Foi antes vítima do mau uso que fez dela. É precisamente aí que reside a verdadeira maka.
A IA não substitui o conhecimento, nem a honestidade, apenas amplifica aquilo que já somos. Nas mãos de quem trabalha com ética, é uma ferramenta extraordinária; nas mãos de quem procura atalhos, transforma-se num risco.
A maka nunca esteve na máquina, sempre esteve nas mãos humanas que a utiliza.


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