Mais de um mês após os protestos anti-imigração que levaram milhares de trabalhadores estrangeiros a abandonar a África do Sul, muitas fábricas têxteis continuam a operar com graves constrangimentos.
Em Newcastle, um dos principais centros industriais da província de KwaZulu-Natal, várias linhas de produção permanecem paradas devido à falta de mão-de-obra qualificada.
A campanha, promovida pelo movimento anti-imigração March and March, tinha como objectivo libertar postos de trabalho para cidadãos sul-africanos, num país onde cerca de um terço da população activa está desempregada. No entanto, os empresários do sector afirmam estar a enfrentar grandes dificuldades para substituir os trabalhadores que abandonaram o país.
Segundo uma visita da Reuters a três fábricas no final de Julho, os proprietários relataram perdas entre 12% e 19% da força de trabalho durante os protestos. Muitos dos trabalhadores que partiram possuíam competências especializadas na área da costura, actualmente escassas, enquanto poucos sul-africanos demonstram interesse em aceitar os baixos salários praticados na indústria.
“As pessoas não querem trabalhar em fábricas”, afirmou Mpho Nkosi, administrador de uma empresa têxtil em Newcastle.
A escassez de trabalhadores estende-se também ao sector da cana-de-açúcar, onde vários postos de trabalho permanecem por preencher. De acordo com analistas, os imigrantes tendem a ocupar funções menos atractivas para a mão-de-obra local.
O porta-voz do Departamento do Emprego e Trabalho afirmou desconhecer uma falta generalizada de trabalhadores e recomendou às empresas que recorram aos serviços públicos de recrutamento.
Os protestos contra a imigração intensificaram-se ao longo de vários meses e culminaram num ultimato lançado a 30 de Junho pelo March and March, exigindo a saída dos imigrantes em situação irregular. O apelo levou muitos trabalhadores estrangeiros a abandonar o país.
O movimento sustenta que a imigração está na origem de vários problemas económicos da África do Sul, incluindo a elevada taxa de desemprego. Contudo, investigadores contestam esta ligação, defendendo que não existem provas de que os imigrantes sejam responsáveis pela falta de emprego.
Os empresários asseguram que a maioria dos seus trabalhadores é sul-africana, mas sublinham que dependem de profissionais qualificados provenientes da Suazilândia e do Lesoto, devido à experiência destes na indústria do vestuário.
“Não conseguimos substituir estas competências de um dia para o outro por trabalhadores locais”, afirmou Alex Liu, proprietário de uma fábrica em Newcastle.
Outro industrial, Ronghua Yan, lançou um programa de formação destinado a sete trabalhadores sul-africanos, depois de ter perdido cerca de 40 funcionários estrangeiros em Junho. No entanto, admite que as limitações financeiras impedem a expansão da iniciativa.
O Sindicato dos Trabalhadores do Vestuário e Têxteis da África Austral estima que cerca de 15% dos aproximadamente 15 mil trabalhadores têxteis de Newcastle tenham abandonado a região durante os protestos, agravando as dificuldades de um sector que já enfrentava desafios relacionados com a baixa remuneração e a escassez de mão-de-obra qualificada.

