31 de Agosto, 2026
Luanda, Angola
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A arrogância de Trump na guerra contra o Irão e Ormuz dita o início da derrota norte-americana no Médio Oriente

Cristiano Paposseco

A arrogância é uma das poucas fraquezas capazes de transformar vitórias em derrotas. Cega a inteligência, despreza a prudência e faz com que o sucesso do passado seja confundido com uma garantia do futuro. Uma visão global da política demonstra que, muitas vezes, o insucesso advém do excesso de confiança.

A arrogância produz uma sensação de invulnerabilidade; a humildade preserva a capacidade de ouvir. Os políticos e governantes arrogantes tendem a acreditar que a sua popularidade é permanente, que os seus adversários são incapazes de os derrotar e acabam por cair na lábia dos bajuladores. As críticas são desprezadas e, aos poucos, perdem a credibilidade.

No cenário político dos Estados Unidos, a política externa caracteriza-se, em determinados momentos, pela arrogância e pelo uso do poder com soberba e prepotência. A política do Presidente dos EUA, Donald Trump, é frequentemente associada a uma abordagem unilateral, baseada no princípio “América First”, primeiro a América, em portugues,  no uso frequente de ameaças diretas e declarações de força contra adversários geopolíticos e outros Estados, bem como numa postura de pressão sobre acordos internacionais e de imposição de barreiras comerciais, muitas vezes acompanhada por uma reduzida disposição para a negociação diplomática.

Na guerra entre os Estados Unidos e o Irão, o Presidente Donald Trump tem adoptado, em vários momentos, uma postura de ultimato e de ameaças. Nos seus discursos e declarações públicas, regista-se uma retórica de superioridade e arrogância, incluindo ameaças de destruir infraestruturas iranianas, centrais elétricas e pontes, bem como advertências relacionadas com o Estreito de Ormuz. Esta postura combina demonstrações de força militar com uma forte pressão política sobre Teerão.

As forças armadas iranianas rejeitam esta retórica, classificando-as como grosseiras e arrogantes, e têm mantido a sua capacidade de resposta militar. O comando militar iraniano, o Islamic Revolutionary Guard Corps (IRGC), incluindo o quartel-general Khatam al-Anbiya, tem sustentado uma posição de resistência perante as ameaças de Washington, procurando demonstrar que a pressão norte-americana não determina, por si só, as suas acções no terreno.

A contradição entre a narrativa e a realidade também se manifesta nas negociações. Trump tem afirmado publicamente que existem contactos e negociações, por vezes sugerindo que estas são procuradas pelo próprio Irão. Do lado iraniano, porém, têm sido negadas negociações directas com os Estados Unidos, com Teerão a privilegiar contactos indiretos através de mediadores, como Paquistão, Qatar e agora que se discute o futuro do estreito de Ormuz, com Omã, que mantém relações privilegiadas com os norte-americanos. Esta divergência de versões aprofunda a incerteza e alimenta o ciclo de hostilidades no Médio Oriente. 

A guerra entre os Estados Unidos e o Irão caracteriza-se, assim, por um impasse estratégico. A América apresenta uma clara superioridade militar, mas, até ao momento, não conseguiu alcançar todos os objetivos a que se propôs no início do conflito, nomeadamente a neutralização das capacidades nucleares iranianas, a mudança de regime que se traduziria na imposição de condições políticas capazes de alterar profundamente o comportamento de Teerão. 

A resistência e o fortalecimento político do Governo iraniano demonstram que a superioridade militar não significa, necessariamente, vitória política. O Governo iraniano permanece no poder, frustrando qualquer expectativa de uma rápida mudança de regime. Ao mesmo tempo, o recurso a drones, mísseis e tácticas assimétricas por parte do Irão tem contribuído para manter a instabilidade na região, afectado a circulação marítima e o escoamento de petróleo e desafiando a liberdade de navegação defendida pelos Estados Unidos.

Perante aquilo que pode ser considerado uma estratégia marcada pelo excesso de confiança do Presidente Trump, começa a colocar-se a questão de saber se a própria administração norte-americana poderá acabar por sofrer uma derrota política, mesmo que não a reconheça publicamente. O conflito provocou fortes oscilações nos preços globais do petróleo, aumentou os custos económicos e militares e gerou desgaste político interno para a administração Trump. O prolongamento das negociações e a necessidade de discutir propostas de cessar-fogo revelam também a dificuldade dos Estados Unidos em impor unilateralmente todas as suas condições ao Irão.

O cessar-fogo e as negociações têm sido, em certa medida, um jogo diplomático de elevada tensão. Para Washington, a pausa nas hostilidades também permite reorganizar a estratégia e reforçar a sua capacidade militar. Nas últimas semanas, os Estados Unidos reforçaram a sua presença militar na região, com o envio de aviões de combate, aeronaves de reabastecimento e forças adicionais. Também foram reforçadas as estruturas de apoio médico militar na Europa, incluindo na Alemanha. Estes movimentos mostram que, apesar da retórica diplomática, Washington continua a preparar-se para diferentes cenários.

O Estreito de Ormuz e a arrogância de Donald Trump poderão transformar-se num dos maiores desafios da sua administração. O estreito é uma rota vital para o comércio mundial de petróleo e gás. A sua interrupção ou o controlo disputado da passagem pelo Irão pode gerar graves consequências económicas, incluindo o aumento dos preços dos combustíveis, inflação, custos militares elevados, operações de escolta mais intensas e forte desgaste político interno nos Estados Unidos.

A subida dos preços da energia afecta directamente o custo de vida dos cidadãos norte-americanos, pressiona a popularidade do Governo e pode prejudicar o partido no poder nas eleições de meio de mandato, que se realizarão agora em Novembro. O problema deixa, assim, de ser apenas militar e passa a ser também económico e político. A crise no Estreito de Ormuz já demonstrou a capacidade de provocar fortes oscilações nos mercados energéticos internacionais. 

A Marinha americana tem gasto recursos consideráveis em missões destinadas a proteger a navegação e a responder às ameaças da Guarda Revolucionária Iraniana. Bloqueios, ataques ou bombardeamentos contra bases e embarcações associados ao conflito no Estreito de Ormuz elevam o risco de uma guerra aberta e prolongada no Médio Oriente.

A posição de Trump também começa a enfrentar resistência dentro do próprio Partido Republicano. No Senado, quatro senadores republicanos — Susan Collins, Bill Cassidy, Lisa Murkowski e Rand Paul — juntaram-se aos democratas numa votação destinada a limitar a capacidade do Presidente de prosseguir ou retomar acções militares contra o Irão sem autorização do Congresso. Esta divisão demonstra que a guerra deixou de ser apenas uma questão de política externa e passou a representar também um problema político interno para a administração Trump. 

Entre a guerra e o cessar-fogo, vamos ver como isto acaba. Ou o Irão vai, de facto, à mesa das negociações, ou a administração Trump terá de recuar em algumas das suas exigências. Também é muito provável que, se não houver entendimento, o que vier a seguir seja bastante mais intenso.

A história demonstra que a arrogância pode transformar uma demonstração de força numa armadilha política. A superioridade militar pode permitir iniciar uma guerra, mas não garante, por si só, a vitória. No caso do Irão, os Estados Unidos enfrentam precisamente esse dilema: vencer militarmente sem conseguir alcançar uma solução política pode significar, no final, uma vitória de Pirro.

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