A Autoridade Portuária da Namíbia (Namport) rejeitou, esta semana, a proposta de investimento da Alpha Nautical Services Limited (Anol) para a construção de uma base logística de apoio à indústria petrolífera e do gás natural no Porto de Lüderitz, um projecto avaliado em cerca de N$ 4 mil milhões, o equivalente a aproximadamente 228,6 mil milhões de kwanzas.
A decisão representa um revés significativo para a empresa liderada pelo empresário ganês Jory Adu-Boahene, que pretendia assumir, durante 25 anos, o desenvolvimento e exploração da infra-estrutura através de um modelo de concessão que incluía a concepção, construção, financiamento, operação e posterior transferência do activo para o Estado namibiano.
O projecto era considerado estratégico para preparar a Namíbia para a nova realidade energética que se desenha após as importantes descobertas de petróleo offshore efectuadas nos últimos anos, colocando Lüderitz no centro da futura cadeia logística da indústria petrolífera da África Austral.
Incapacidade financeira e técnica ditou rejeição
Segundo uma carta enviada pelo director executivo da Namport, Andrew Kanime, aos ministérios das Obras e Transportes e das Indústrias, Minas e Energia, a avaliação técnica concluiu que a Anol não conseguiu comprovar possuir capacidade financeira, experiência operacional nem competências técnicas compatíveis com um investimento desta dimensão.
A autoridade portuária sustenta que a empresa apresentou documentação insuficiente para demonstrar a viabilidade do projecto, não identificando financiadores vinculados, garantias bancárias, estrutura accionista consolidada nem um plano de financiamento credível.
Além das reservas financeiras, a Namport considera igualmente que a empresa, criada apenas em 2020, não possui historial comprovado na gestão de bases logísticas destinadas à indústria petrolífera, defendendo que a experiência individual dos seus accionistas não substitui o percurso empresarial exigido para um investimento desta natureza.
Localização proposta também levantou reservas
Outro dos factores determinantes para a rejeição foi a localização escolhida para instalar a infra-estrutura.
A Anol pretendia desenvolver a base em Robert Harbour, dentro do Porto de Lüderitz. Contudo, segundo a Namport, aquela zona apresenta limitações técnicas significativas, nomeadamente profundidade insuficiente para navios de grande porte e necessidade de dragagens em rocha dura, operações consideradas economicamente pouco sustentáveis.
A autoridade portuária entende igualmente que a proposta não está alinhada com o plano director do porto nem com a estratégia nacional destinada a transformar Lüderitz num verdadeiro centro logístico para todas as fases da indústria petrolífera, desde a exploração até à produção.
Empresa rejeita conclusões
A resposta da Alpha Nautical Services foi imediata.
Jory Adu-Boahene afirmou que a empresa dispõe dos meios financeiros necessários para concretizar o investimento e considera injusta a avaliação da Namport.
O empresário sublinha que a Anol optou por constituir uma empresa registada na Namíbia precisamente para cumprir a legislação nacional e promover a participação local no projecto, alegando que essa decisão acabou por ser utilizada como argumento desfavorável durante o processo de avaliação.
Relativamente ao financiamento, Adu-Boahene garante que o parceiro financeiro da empresa possui activos superiores a 50 mil milhões de dólares, acrescentando que já foram investidos recursos significativos nos estudos técnicos do empreendimento.
Quanto à experiência operacional, refere que os investidores da Anol acumulam mais de um século de experiência conjunta na indústria energética e participam igualmente na Ladol, considerada uma das principais bases logísticas petrolíferas da Nigéria, utilizada por multinacionais como a TotalEnergies e a Shell.
Alegadas pressões políticas ensombram processo
A decisão da Namport ocorre igualmente num ambiente de forte sensibilidade política.
Fontes próximas do processo referem que terão existido pressões para que a proposta fosse aprovada, apesar das reservas levantadas pelos técnicos responsáveis pela avaliação.
Essas mesmas fontes admitem que a rejeição poderá agora abrir espaço para um concurso público internacional, permitindo que vários operadores especializados apresentem propostas em igualdade de circunstâncias.
Paralelamente, também expirou o memorando de entendimento celebrado entre a Agência de Desenvolvimento Industrial da Namíbia (Nida) e a Anol em Junho de 2024.
Apesar de terem surgido alegadas tentativas para prolongar esse acordo, o director executivo interino da Nida, Phillip Namundjebo, esclareceu que nunca existiu qualquer deliberação formal do conselho de administração que autorizasse a sua renovação.
Parceiros locais afastam-se do projecto
Entre os parceiros namibianos inicialmente associados ao investimento encontravam-se o empresário Jason Kasuto, da Monasa Advisory & Associates, e o advogado Andrew Naunyango.
Kasuto confirmou, entretanto, que já não integra a direcção da empresa, remetendo quaisquer esclarecimentos para os actuais responsáveis da Anol.
Outro investidor ligado ao projecto, Josef Andreas, manifestou, contudo, interesse em continuar disponível para futuras oportunidades de investimento caso o Governo avance com um novo processo de selecção.
Corrida ao petróleo entra numa nova fase
A decisão da Namport representa mais do que a rejeição de uma proposta empresarial. Reflecte igualmente a crescente exigência das autoridades namibianas na selecção de parceiros para um sector considerado decisivo para o futuro económico do país.
Com reservas petrolíferas offshore que despertam o interesse das maiores multinacionais energéticas do mundo, a Namíbia procura garantir que os investimentos estratégicos sejam executados por operadores com capacidade financeira comprovada, experiência internacional e soluções técnicas compatíveis com a dimensão dos desafios logísticos que acompanham o desenvolvimento da nova indústria petrolífera.
A recusa da proposta da Anol poderá, assim, marcar o início de uma nova etapa na disputa pelos futuros contratos ligados ao petróleo namibiano, um dos sectores mais promissores do continente africano.
Esta versão privilegia a hierarquização dos factos, contextualiza a importância estratégica do projecto e apresenta as diferentes posições envolvidas, mantendo um tom informativo e equilibrado, próprio de uma reportagem de página inteira.
Fonte: The Namibian

