1 de Setembro, 2026
Luanda, Angola
Política

Quiosa pode ser apenas uma “interessante distracção”

Nos últimos tempos, a vice-presidente do MPLA, Mara Quiosa, ganhou uma atenção invulgar na imprensa nacional e não só, depois de surgir à frente de uma importante delegação composta por membros do Bureau Político do MPLA, em actividades de massas na Huíla e em Benguela.

O repentino protagonismo de Quiosa “incendiou” o debate em torno do futuro candidato dos camaradas às eleições de Dezembro no MPLA e, subsequentemente, do cabeça-de-lista dos camaradas nas eleições gerais do próximo ano.

Tal como a Southern Bridges escreveu em edições anteriores, Quiosa reúne requisitos que a tornam uma possível, embora remota, candidata.

Quiosa é jovem e é mulher num país onde grande parte do eleitorado é jovem e mulher. Quiosa desempenha um cargo importante dentro das estruturas do MPLA, o que lhe dá acesso a dossiês sensíveis. Também parece gozar não apenas da simpatia dos “guardiões” do poder, mas também da sua confiança, o que é essencial para quem sonha alcançar lugares de destaque dentro do próprio partido.

Paradoxalmente, numa sociedade ainda profundamente conservadora e num sistema político onde os centros de decisão continuam a ser dominados por homens de uma geração mais velha, a sua juventude e o facto de ser mulher poderão funcionar como factores inibidores. Essa resistência poderá fazer-se sentir não apenas no aparelho político, mas também em instituições tradicionalmente mais conservadoras, como as Forças Armadas.

Falta também à actual vice-presidente dos camaradas uma dimensão internacional que, na minha perspectiva, já deveria estar consolidada. Num contexto geopolítico cada vez mais complexo e imprevisível, um candidato à Presidência de um país como Angola não pode limitar-se ao reconhecimento interno. Deve ser uma figura conhecida e respeitada nos principais centros de poder mundial, como Pequim, Moscovo e Washington, onde, mais cedo ou mais tarde, terá de defender os interesses estratégicos do país.

É possível que Mara Quiosa já disponha de contactos e canais de comunicação nesses meios, mas, se os tem, permanecem praticamente invisíveis para a opinião pública. Essa descrição pode revelar-se uma fragilidade, sobretudo numa altura em que a diplomacia pessoal e o capital político internacional contam tanto quanto a experiência governativa.

Até ao momento, não vimos protagonizar visitas oficiais ao estrangeiro que ajudassem a afirmar esse perfil, embora tenha recebido, nos últimos tempos, importantes delegações estrangeiras a nível do partido.

Portanto, dito isto, o que parece é que alguém nos quer distrair daquilo, ou daquele, que de facto interessa: o candidato dos camaradas às presidenciais de 2027.

Resta saber se o protagonismo de Mara Quiosa representa o início de uma candidatura ou apenas mais um capítulo da gestão das expectativas dentro do MPLA. Se há uma lição que a sucessão política em Angola tem deixado, é que os nomes mais falados nem sempre são os que acabam por ser escolhidos.

Ana Margoso

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