Mais de metade da população activa da Namíbia recorre a empréstimos para comprar alimentos e cobrir despesas básicas, revelam dados da mais recente Pesquisa de Inclusão Financeira da Agência de Estatísticas da Namíbia (NSA), que expõem o agravamento da pressão sobre os rendimentos das famílias e o crescimento do endividamento no país.
Segundo o estudo, 51,3% dos trabalhadores namibianos contraem dívidas para garantir a alimentação, enquanto 22,1% recorrem ao crédito para despesas relacionadas com a educação e 16,4% para assegurar o transporte diário. Cerca de 546 mil pessoas economicamente activas não dispõem de rendimento suficiente para cobrir as necessidades básicas e recorrem a bancos e instituições de microcrédito.
O recurso ao crédito para despesas essenciais aumentou significativamente nos últimos nove anos. De acordo com a NSA, a percentagem de namibianos que recorrem a empréstimos formais e informais passou de 42,1%, em 2017, para 49%, em 2025, numa tendência atribuída aos baixos rendimentos e ao aumento do custo de vida.
Os dados revelam ainda uma forte desigualdade salarial. Cerca de 295 mil trabalhadores recebem menos de 2 mil dólares namibianos por mês, enquanto apenas 44 mil auferem mais de 11 mil dólares namibianos. Paralelamente, o endividamento das famílias continua a aumentar, com os namibianos a deverem cerca de 7,2 mil milhões de dólares namibianos a instituições de microfinanciamento e mais de 124 mil milhões de dólares namibianos aos bancos comerciais.
Economistas consideram que a utilização de empréstimos para comprar alimentos revela uma fragilidade estrutural da economia namibiana. Dirk Haarmann afirma que, quando as famílias contraem dívidas para “colocar comida na mesa”, o problema deixa de ser uma dificuldade ocasional e passa a reflectir falhas profundas nos rendimentos e no mercado de trabalho.
Claudia Haarmann alerta, por seu lado, para o crescimento de um ciclo de endividamento em que muitas famílias recorrem a novos empréstimos para pagar dívidas anteriores, ficando cada vez com menos recursos para as despesas futuras. Algumas famílias, segundo a economista, já reduzem o número de refeições, diminuem as porções de alimentos para as crianças ou vendem bens e animais para sobreviver.
Para Jesaya Hano-Oshike, o recurso ao crédito para o consumo essencial demonstra que muitas famílias já esgotaram as suas reservas financeiras e estão particularmente expostas a novos choques económicos.
Perante o agravamento da situação, a Coalizão de Subsídio de Renda Básica da Namíbia defende a criação de uma renda universal de 500 dólares namibianos mensais para cidadãos entre os 0 e os 59 anos. Outros economistas defendem, contudo, uma resposta centrada na criação de empregos, no fortalecimento do sector privado e na diversificação da economia.
Os especialistas convergem num ponto: o aumento do endividamento para comprar alimentos não representa apenas uma crise temporária do custo de vida, mas um problema económico estrutural que exige reformas profundas para aumentar os rendimentos e reduzir a dependência das famílias em relação ao crédito.
By: The Namibian

