31 de Agosto, 2026
Luanda, Angola
Destaque Economia

País vê défice disparar para 3,9 biliões de kwanzas apesar do petróleo mais caro

As contas do Estado angolano registaram um agravamento significativo no primeiro semestre deste ano. Entre Janeiro e Junho, o défice fiscal atingiu 3,94 biliões de kwanzas, contra 925,8 mil milhões de kwanzas no período homólogo de 2025, segundo dados do Ministério das Finanças analisados pelo Rio Times

O aumento ocorre num contexto particularmente favorável para as receitas petrolíferas. O preço médio do Brent atingiu 91,50 dólares por barril nos primeiros seis meses de 2026, contra 72,03 dólares no mesmo período do ano passado. O petróleo angolano chegou a atingir, no segundo trimestre, um preço médio de 101,89 dólares por barril, ainda segundo a Rio Times. 

Apesar desta valorização, escreve o jornal, as receitas do Estado cresceram apenas 1,5%, passando de 10,29 biliões para 10,44 biliões de kwanzas. Em sentido contrário, a despesa pública aumentou 28,2%, para 14,39 biliões de kwanzas. A maior pressão sobre as contas públicas veio das despesas com bens e serviços, que aumentaram 54,1%, atingindo 3,93 biliões de kwanzas.

Os subsídios aos combustíveis também registaram um crescimento significativo, de cerca de 56%, para 1,73 biliões de kwanzas. Só esta rubrica representou um aumento de aproximadamente 621 mil milhões de kwanzas em relação ao primeiro semestre de 2025, escreve a fonte. 

Por esta razão, os juros da dívida pública aumentaram 13,6%, para cerca de 2,69 biliões de kwanzas, enquanto as despesas com salários do sector público cresceram igualmente 13,6%.

O resultado é um défice equivalente a 5,5% do Produto Interno Bruto (PIB), contra 1,4% no primeiro semestre de 2025.  A evolução coloca em evidência uma das principais fragilidades das finanças públicas nacionais, que continua fortemente dependente das receitas petrolíferas e continua a coexistir com uma estrutura de despesas difícil de reduzir.

O aumento do preço do crude permitiu elevar as receitas fiscais provenientes do petróleo, mas não foi suficiente para acompanhar o crescimento da despesa. O próprio Ministério das Finanças atribui o resultado ao facto de as receitas públicas terem crescido a um ritmo muito inferior ao das despesas. 

Esta situação acontece numa altura em que o Fundo Monetário Internacional (FMI) ter alertado, na sua mais recente consulta sobre Angola, para a necessidade de reforçar a disciplina orçamental, reduzir os subsídios aos combustíveis e utilizar eventuais receitas extraordinárias do petróleo para diminuir a dívida e reforçar as reservas.

O agravamento do défice coloca pressão adicional sobre o financiamento do Estado quando o país continua a enfrentar elevados encargos com a dívida pública.

No primeiro semestre, as amortizações de dívida atingiram cerca de 6,9 biliões de kwanzas, enquanto os desembolsos de financiamento chegaram a 12,5 biliões de kwanzas, segundo os dados do Ministério das Finanças. 

A evolução das contas públicas ganha ainda maior importância numa altura em que Angola entra num período de preparação para as eleições gerais de 2027.

Com o petróleo a proporcionar receitas superiores às inicialmente esperadas, a questão que se coloca é se o Governo conseguirá transformar o actual ciclo de preços elevados numa oportunidade para reduzir a pressão da dívida e consolidar as finanças públicas, ou se o aumento das receitas continuará a ser absorvido pelo crescimento da despesa.

João Fonseca

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