Cristiano PapoSeco (Especialista em Relações Internacionais)
A intensificação dos ataques russos com drones e mísseis contra várias regiões da Ucrânia, conjugada com a crescente pressão sobre as defesas aéreas de Kiev, volta a colocar uma questão que há muito parecia afastada do debate: poderá a Rússia, a manter-se a actual dinâmica do conflito, impor uma derrota estratégica à Ucrânia e avançar para a conquista de uma parcela muito maior do território ucraniano?
A pergunta pode parecer excessiva, sobretudo depois de mais de quatro anos de guerra. Mas o cenário militar actual exige atenção. A guerra entrou no quinto ano desde a invasão em larga escala de 24 de Fevereiro de 2022, embora o conflito russo-ucraniano remonte a 2014, com a anexação por parte de Moscovo da Crimeia e o início da guerra no Donbass.
Desde então, o conflito transformou-se numa guerra de desgaste, na qual a superioridade numérica e industrial russa começa a pesar cada vez mais. Moscovo dispõe de uma capacidade de produção militar muito superior e consegue manter uma pressão constante sobre as posições ucranianas, enquanto Kiev enfrenta dificuldades para repor efectivos, munições e sistemas de defesa aérea.
É neste contexto que a intensificação dos ataques aéreos russos ganha particular importância. A Rússia tem recorrido cada vez mais a grandes vagas de drones e mísseis, procurando atingir infra-estruturas energéticas, instalações militares, centros logísticos e áreas urbanas. Kiev e outras cidades ucranianas continuam expostas a ataques que obrigam as forças ucranianas a gastar grandes quantidades de munições de defesa aérea.
O problema não é apenas a quantidade de ataques, mas também a capacidade de os travar.
A Ucrânia construiu, com apoio ocidental, uma das redes de defesa aérea mais sofisticadas da Europa. No entanto, essa rede depende fortemente de sistemas e munições fornecidos pelos seus aliados. Entre os equipamentos mais importantes encontram-se as baterias Patriot, consideradas essenciais para a defesa contra mísseis balísticos russos, incluindo os Iskander.
É precisamente neste domínio que a situação começa a tornar-se preocupante. A Ucrânia enfrenta uma escassez crítica de interceptores Patriot, enquanto a Rússia aumentou significativamente o emprego de mísseis balísticos e hipersónicos. Segundo avaliações recentes, a falta de interceptores já deixou algumas áreas ucranianas mais vulneráveis aos ataques russos.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tem insistido junto dos Estados Unidos e dos restantes aliados ocidentais na necessidade urgente de reforçar a defesa aérea. Kiev pretende obter mais sistemas Patriot, SAMP/T, NASAMS e outros equipamentos capazes de proteger cidades, instalações militares e infra-estruturas críticas.
A questão é que estes sistemas não podem ser produzidos e entregues à mesma velocidade com que são consumidos numa guerra desta dimensão. A produção de interceptores é complexa, dispendiosa e limitada, enquanto a Rússia tem demonstrado capacidade para lançar sucessivas vagas de mísseis e drones.
Ao mesmo tempo, a Ucrânia procura compensar a sua inferioridade convencional através de uma utilização cada vez mais sofisticada de drones de longo alcance. Kiev tem conseguido atingir instalações militares, refinarias, centros logísticos e outras infraestruturas em território russo.
Apesar da escassez de baterias Patriot, nos últimos dias, a Ucrânia realizou operações de drones contra território russo, atingindo inclusive a região de Moscovo e importantes infraestruturas logísticas. A Rússia, por sua vez, respondeu com intensos ataques com mísseis e drones contra o território ucraniano.
Esta realidade mostra que a guerra entrou numa nova fase: já não se trata apenas de saber quem controla determinado quilómetro de território na frente de combate, mas também de perceber qual dos dois países consegue manter durante mais tempo a sua capacidade militar, industrial, económica e humana.
E aqui reside uma das maiores vulnerabilidades da Ucrânia.
A resistência ucraniana surpreendeu o mundo em 2022. A Rússia não conseguiu conquistar Kiev nem derrubar o Governo de Zelensky, como muitos temiam no início da invasão. Quatro anos depois, a Ucrânia continua a existir como Estado soberano e mantém uma capacidade significativa de combate. A própria NATO reconheceu, no quarto aniversário da invasão, a resistência ucraniana ao longo dos quatro anos de guerra.
Mas resistir não significa necessariamente vencer.
A Ucrânia enfrenta um problema demográfico e militar extremamente difícil. A mobilização de novos soldados tornou-se cada vez mais complicada, enquanto as perdas acumuladas ao longo de anos de combate pressionam as Forças Armadas ucranianas. Ao mesmo tempo, a economia e a indústria de defesa do país continuam dependentes de apoio externo.
A Rússia, apesar das perdas, possui uma população muito maior, uma base industrial mais extensa e uma capacidade de mobilização e produção militar que lhe permite sustentar uma guerra prolongada. Embora isto não signifique que Moscovo tenha capacidade para conquistar toda a Ucrânia, o que nunca foi reivindicado pelos russos, uma operação desta dimensão continuaria a ser extremamente difícil e dispendiosa.
A Rússia já controla uma parte significativa do território da Ucrânia, incluindo a Crimeia e áreas ocupadas no leste e no sul. A questão que se coloca agora é se conseguirá continuar a expandir essas áreas enquanto desgasta as forças ucranianas e reduz a capacidade de Kiev para defender as suas principais cidades e infraestruturas.
A guerra na Ucrânia demonstrou que a Rússia não conseguiu obter a vitória rápida que inicialmente procurava. Mas também demonstrou que a Ucrânia não pode sustentar indefinidamente uma guerra desta intensidade sem o apoio dos seus aliados.
É por isso que a actual escassez de interceptores Patriot, a pressão sobre as forças ucranianas e a capacidade russa de lançar ataques sucessivos devem ser encaradas com seriedade.
Não é inevitável que a Rússia “engula” a Ucrânia. Mas também seria um erro considerar impossível uma derrota ucraniana se as actuais condições militares se mantiverem durante demasiado tempo.
A questão central já não é apenas quem ganha a próxima batalha. É saber quem consegue aguentar mais tempo. E, numa guerra de desgaste, essa pode acabar por ser a batalha decisiva.

