A queda de Bashar al-Assad e a ascensão de Ahmed al-Shara ao poder na Síria apanharam grande parte dos analistas e fazedores de política ao redor do mundo de surpresa. Assad, protegido dos russos e que tinha no Irão um importante parceiro estratégico, tinha, para alguns, finalmente caído. Ahmed al-Shara e as suas tropas partiram de Idlib e foram tomando cidades uma atrás da outra, rumo a Damasco. As forças russas estacionadas na região relataram, alarmadas, a forma como o exército sírio abandonava as suas posições e fugia sem oferecer resistência.
Nas primeiras horas do dia 08 de Dezembro de 2024, quando as primeiras notícias sobre a destituição de Assad são anunciadas nos principais canais internacionais, a pergunta que não se queria calar era saber o paradeiro daquele que no Ocidente era visto como um ditador: Bashar al-Assad.
As informações chegam contraditórias. Alguns órgãos afirmam que Assad estava morto, teria morrido na queda de um avião que, entretanto, tinha desaparecido dos radares. Outros, os mais bem informados, anunciavam que Assad e a sua família tinham partido para o exílio em Moscovo, a capital russa.

Bashaar al-Assad em companhia do Presidente Russo, Vladimir Putrin
Entre uma e outra informação, havia aqueles que preferiam olhar para a “big picture” para encontrar respostas. Era importante compreender o que se estava a passar na Síria e, sobretudo, quem eram as forças por detrás do HTS, a milícia que partiu confiante de Idlib em direcção a Damasco, sem encontrar qualquer resistência ao longo do caminho. Idlib, a província Síria que fica no norte do país, é uma pista fundamental para se entender o que se passou na Síria. Idilb, por si só, dá direito a um outro artigo, num outro dia, para que se percebam melhor as conturbadas relações entre a Síria e a Turquia.
Na lista de suspeitos dos prováveis patrocinadores do derrube de Assad figuravam os serviços de inteligência ocidentais, não por existirem provas, mas talvez porque eram os suspeitos de sempre. Mas o “modus operandi” na Síria, segundo analistas, não condizia com o padrão ocidental de actuação.
Os primeiros pronunciamentos de Washington, Londres e Bruxelas não batiam certo. Faltava o entusiasmo de sempre em situações do género. Havia cautela no discurso. Não era normal. Aliás, Bruxelas manteve o silêncio durante o dia todo, para, no final do dia, emitir um comunicado pouco convencional e até cauteloso.
Para compreender o que se passou na Síria, é importante compreender a geopolítica e a geoestratégia da região após a Primavera Árabe e o que se seguiu na relação entre a Síria e a Turquia.
Assad é um oftalmologista formado no Reino Unido e filho do antigo Presidente do país, Hafez al-Assad. Assad, um civil que passou muito tempo da sua vida no Ocidente, herdou um país que durante três décadas foi conduzido pelo seu pai. A Síria do início dos anos 2000 era um dos países mais estáveis da região do Médio Oriente.
Três anos depois de Assad assumir o poder na Síria, Recep Tayyip Erdoğan é empossado Primeiro-Ministro na Turquia. As relações entre Damasco e Ancara estreitam-se de tal forma que Assad se torna o primeiro Presidente do seu país a visitar a Turquia depois de muitos anos. Os dois tornam-se tão próximos que passam a tirar férias juntos, em companhia das respectivas famílias.

Ahmed al-Shara, novo Presidente sírio recebdo em Ancara por Recep Erdogan
A relação entre os dois países torna-se tão forte que Erdoğan tenta influenciar Assad a fazer reformas no país, tal como exigia o Ocidente, quando se dão os acontecimentos da Primavera Árabe.
Os manifestantes sírios exigem nas ruas de Damasco e de outras cidades do país a libertação dos presos políticos, liberdades políticas e civis, o fim do estado de emergência decretado ainda durante o governo de Assad pai, a redução dos poderes dos serviços de segurança, o combate à corrupção, o pluralismo político e, por último, reformas democráticas. Os protestos sobem de tom e são reprimidos pelas forças de segurança sírias, provocando reacções da comunidade internacional, que passou a exigir o fim da repressão, a libertação dos presos políticos e dos detidos e o início de uma transição política credível.
As preocupações de Ancara eram reais, não propriamente porque o Ocidente exigia reformas na Síria, mas, sobretudo, porque tinha preocupações de segurança, devido aos milhares de refugiados que chegavam às fronteiras turcas, bem como à questão dos curdos sírios.
A partir de 2011, Erdoğan concluiu que Assad não iria reformar o sistema e que o regime estava a perder legitimidade. Com isso, a Turquia passa progressivamente a apoiar a oposição política e, mais tarde, grupos armados.
É importante ressaltar que a queda de Assad na Síria e a ascensão de al-Shara ao poder representaram uma vitória dupla para Ancara. Sem Assad no poder, a Turquia tinha agora, no país vizinho, um regime que olhava para si com simpatia, e que contava com eles para quase tudo, desde conselhos e apoios nos mais variados sectores, inclusive na aproximação destes com a comunidade internacional, que olhava para os novos inquilinos de Damasco, com desconfiança. .

A cidade de Idilb no norte da Síria completamente destruída na guerra civil que assolou o país
Ao mesmo tempo, Ancara ganhou um importante activo que viria a ser fundamental do ponto de vista da geopolítica regional, numa altura em que as relações com o Ocidente passavam pelos seus piores momentos.
Com um governo que jogava a seu favor em Damasco, a Turquia de Erdoğan conseguiu, com uma só cajadada, colocar o seu país, que ficou durante vários anos isolado, novamente no xadrez geopolítico da região ao mesmo tempo que conseguiu também acalmar a situação dos curdos dentro do seu próprio território.

