O Botsuana está a enfrentar uma crise de febre aftosa que ameaça o sector pecuário, uma das principais alternativas económicas do país aos diamantes, com as restrições sanitárias a dificultarem a circulação de gado e a colocarem em risco o acesso da carne bovina aos mercados internacionais.
O impacto já chegou às empresas do sector. Dois grandes operadores de feedlots recorreram ao Tribunal Superior do Botsuana para obter autorização para abater ou exportar mais de 6.600 bovinos, alegando que as restrições impostas na sequência dos surtos de febre aftosa estão a ameaçar a sustentabilidade das suas operações. Segundo os operadores, os animais permanecem nos feedlots há mais de 200 dias além do período inicialmente previsto para o abate, acumulando custos adicionais de alimentação estimados em 27 milhões de pula.
A dimensão do problema torna-se mais evidente quando se considera a importância do mercado externo para a pecuária botsuanesa. De acordo com dados apresentados recentemente pelo Ministério das Terras e Agricultura, as exportações de carne através da Botswana Meat Commission (BMC) geraram 2,36 mil milhões de pula entre 2020 e 2025, apesar das interrupções provocadas por surtos anteriores da febre aftosa.
A situação agravou-se este ano depois de novos surtos terem levado à suspensão das exportações de carne bovina para a União Europeia. A decisão atingiu um mercado considerado estratégico para o Botsuana, devido aos preços mais elevados obtidos pela sua carne. A Organização Mundial da Saúde Animal (WOAH) suspendeu, entretanto, o estatuto de zona livre de febre aftosa sem vacinação em várias zonas do país.
Para um país cuja economia continua fortemente dependente dos diamantes, os problemas enfrentados pelo sector da carne representam um desafio adicional à estratégia de diversificação económica. O Governo tem procurado reforçar a capacidade de controlo da doença e, ao mesmo tempo, encontrar novos mercados para reduzir a dependência dos tradicionais compradores europeus.
A BMC já indicou que pretende acelerar a procura de mercados alternativos no Golfo, em África e na Ásia, numa tentativa de construir uma estrutura de exportação mais diversificada e resistente a futuras perturbações.
O problema, porém, ultrapassa o sector da carne. A crise expõe uma vulnerabilidade estrutural do Botsuana: a dificuldade de transformar actividades alternativas aos diamantes em fontes suficientemente estáveis de receitas, emprego e exportações. A febre aftosa mostra, assim, que diversificar a economia não significa apenas criar novos sectores, mas também garantir que estes conseguem resistir a choques sanitários, comerciais e climáticos.
A febre aftosa é uma doença viral muito contagiosa que afecta animais de casco fendido, tal como, os bovinos (vacas e bois), suínos, ovinos, caprinos e búfalos. A doença provoca normalmente febre, feridas e bolhas na boca, na língua, nas patas e nas tetas, dificultando a alimentação e a locomoção dos animais. Em animais adultos, geralmente não é mortal, mas pode provocar forte perda de produção de leite e carne.

